Só é possível se manter de pé quando a gente se arrisca a sair do lugar

Ontem depois de muito tempo longe fui pra Gira. Eu sinto que ainda estou engatinhando na umbanda. De modo geral ao mesmo tempo em que sou cética, eu cresci e vivi em um mundo onde estamos mais entre os mortos do que entre os vivos.

A principio parei de ir por conta de uma sequencia de feriados, depois o frio, o medo da noite, falta de companhia, uma desculpa atras da outra.

Depois de ouvir uma palestra sobre riqueza, bens materiais e outros apegos e ouvir sobre o momento de agradecer as coisas que foram recebidas, dinheiro, amor, sucesso, na minha cabeça só passava: quem pede amor? E a ficha meio que foi caindo sobre os lugares que as coisas ocupam na minha vida. Racionalmente eu não sentia que eu tinha um problema além do financeiro, mas que o financeiro ainda assim não era algo pra levar pra uma gira de umbanda.

[ E aqui um adendo – eu realmente não sei o que me faz pensar que os Orixás e a Ancestralidade certamente tem mais o que fazer e tem alguma burocracia lógica na religiosidade. Eu não sei de verdade como eu chego nesses pontos, mas eu chego. ]

Sentei muda na frente do Preto Velho, tentando só ficar presente. Eu sentia ali que não tenho o que pedir e nem nada pra falar, esperando ele me abençoar e eu partir pra viver uma boa semana. Mas ai quem falou foi ele, pediu pela minha saúde, perguntou porque eu não dormia (eu tenho dormido umas 3 horas por noite em soquinhos). Me falou que não tem como eu continuar vivendo desesperada sem saber se vou conseguir sobreviver e não falando isso pra ninguém.

Me disse sem que eu dissesse absolutamente nada sobre os acontecimentos do ultimo mês “você acredita muito nas pessoas, e elas não correspondem ao que você vê nelas e você se decepciona. Mas não mude quem você baseado em quem elas são”. Pensei em D. na T. em M. e como essas amizades estilhaçaram meu coração de formas diferentes.

Nesse ponto eu já estava na beiradinha do absurdo e ai veio aquilo que me desestruturaria completamente:

“Eu preciso que a partir de agora você seja egoísta. A vida inteira você fez tudo o que podia pelas pessoas mas você precisa parar. Existe um limite pra carregar pessoas, mesmo que elas sejam pai ou mãe”

Seja egoísta me pegou demais, e eu nem consigo explicar porque. De novo, racionalmente me parece natural. Mas pensar na prática é quase como me trair e era assim que eu me sentia até agora a tarde.

Minha família veio até a minha casa, eu tinha experimentado pela primeira vez pedir ajuda pra uma atividade. Eu tenho 2 TVs imensas, minha avó tem 1 bem pequena de tubo, eu queria que ela ficasse com a minha TV. Minha avó não sai de casa muitos anos, ela tem 96 e mal se locomove. A companhia dela é a TV. Me pareceu uma decisão lógica. Pedi ajuda porque precisaria instalar. Bom minha mãe transformou a coisa toda em algo sobre ela, problematizou como absolutamente sempre, e estragou o dia. Nenhuma Tv foi instalada, ela reclamou que é na família onde a gente convive com as piores pessoas da face da terra e saiu como se nada tivesse acontecido.

Minha mãe me adoece desde os meus sete anos e hoje eu acredito que é porque ela confunde onde termina ela e onde eu começo. É uma relação bem conturbada e dolorosa. Ela é outro ser humano com meus outros irmãos ,mas ela é cruel de modo geral.

Na minha casa nunca existiu afeto, nós fomos criados, mas não fomos amados. Amor é quase uma falha de caráter. Na minha casa não se abraça, não se diz eu te amo. Não é possível chorar sem ser ridicularizado. Se você for homem você pode ter traumas, mas se você é mulher, precisa ser forte. Não existe dor, luto, carinho, trabalho bem feito. Estamos sempre devendo.

Eu sinto que meu jeito reprimido de estar no mundo, de tentar ser útil pra ser amada, ficando desconfortável com qualquer demostração de carinho, permitindo que as pessoas me cuspam, me maltratem, me ofendam sem revidar e o pior de tudo, sem me proteger é uma grande virtude mas não é.

Eu estou escondida do mundo a tanto tempo que nem sei, pedindo autorização pra existir e sem querer olhar ou nomear o problema.

Eu afasto pessoas, eu não consigo construir laços, eu fujo das pessoas que dizem gostar de mim. No entanto mantenho aquilo que a muito tempo virou nó. Eu não sei deixar chegar, eu não sei deixar partir.

Chegou a hora de levantar do trono das virtudes e jogar tudo que eu carrego na minha taça no mar. Talvez eu precise ter a coragem de transbordar, de permitir que vejam meus excessos, de me afogar nas minhas emoções.

Estar no meu casulo é seguro, sem duvidas, mas é brutalmente solitário. Eu não sei se quero passar o resto da minha vida escondendo minha sensibilidade, minha carência, meus medos. Eu sou gigante, e poderia ser ainda mais.

Eu vou sair desse trono, dessa taça, dessa concha, dessa casca. Em volta do meu coração não existem ossos de vidro, e os baques da vida não são novos pra mim.

✴︎  Inspirada pelo post da Luly Lage e sua Rainha de Copas como desafio do BEDA 2026 do Entreblogs 

Comente ↓ 1.365 visualizações

me deixa saber o que você pensa

2 Comentários

Luly Lage

Sair da casca é apavorante, não importa o quão apertada e incômoda ela é, mas é tão, tão necessário... Acho que, no fim, manter essa casca ao nosso redor parece estar nos privando das coisas ruins do mundo, mas a real é que acaba privando mais das boas, no fim das contas! Sinto muito por essa relação tão complicada na qual sua família te colocou em relação a ela, viu? Amei que a Rainha de Copas tenha te inspirado a escrever esse post, mas saber de tudo isso deixou o coração bem apertado. Espero que você, de fato, levante desse trono e passe a caminhar livremente sobre as águas do mar!

responder

Bruna

Na primeira vez que fui numa gira pegar passe, era gira de marinheiros. Eu estava com algo no meu olho e era a semana antes da minha formatura de graduação... eu estava uma pilha de nervos. Eu não sou da umbanda, mas fui a convite de uma amiga do meu namorado, então não entendo muito dos nomes e não quero de forma nenhuma falar besteira aqui... mas quando chegou a minha vez, eu estava indo acompanhada de uma mulher e me parar na frente de um homem, mas outro homem veio me buscar e começou a falar comigo. Eu não sabia o que fazer, então só fiquei parada enquanto ele passava umas ervas e alguma coisa que estava queimando (não sei o que era). Aí ele me falou que eu tenho tudo de conforto, roupa, trabalho e que ele sabia o que faltava em mim... era fé. Me chamou de bichinho algumas vezes também... mas aquilo me marcou demais. Ele me disse que eu tinha que acreditar em algo, nem que fosse em mim mesma... e eu comecei a chorar de soluçar. Acho que eu devo ter ficado uns 10 minutos chorando inconsolavelmente. Mas aquilo me curou de dentro pra fora. É incrível como sabem o que é o melhor pra gente, quando nem a gente sabe o que é isso. Torço para que você consiga achar sua forma de ser egoísta. Por essas e outras admiro muito quem é da umbanda. Abração

responder