Sexo, violência e pneus
*aviso de gatilho: violência, estupro
Eu associo sexo a violência.
Cheguei a esta conclusão porque tenho pensado muito em coisas que vivi e que acredito não soube nomear. Eu tenho pensado tanto no assunto, que há umas duas semanas não suportei a velocidade dos meus pensamentos e num sentimento de extrema segurança verbalizei, “amiga acho que fui estuprada”.
Eu não falei sobre, eu não falo sobre porque eu não conseguia e acredito que ainda não consigo chegar numa conclusão. Como se eu precisasse da validação. Precisasse que alguém me falasse um sim, não, talvez.
Eu venho de uma família pouquíssimo amorosa, mas muito presente. Assistindo Lanternas me senti muito próxima da ideia do crescer sem medo. Acho que cresci preparada, ou pelo menos essa era a intenção e parece que funcionou. Eu sou blindada, do mal e também do bem. Aprendi que meus problemas são meus e que eles não devem incomodar outras pessoas que estão vivendo suas vidas. Que o correto é estar disponível pra tornar a vida dos outros melhor, mais fácil e mais leve. Ser útil me tornaria querida.
As meninas da família foram criadas para o casamento, não existiam grandes expectativas para garotas negras. Foi terrível para as avós, era terrível para a mãe e as tias, seria terrível pra todas nós a menos que alguém nos quisesse. E para nos querer precisaríamos parecer muitas coisas, menos nós mesmas. Não existia desejo, vontade, sonho. Tudo era um grande supérfluo. Herdamos um vazio de esperança.
Eu ainda vivia o agravante do “filho feio”, eu nunca fui feia, mas era a criança gorda, o cachorro que sobra na ninhada. Se algo ruim me acontecia a culpa era minha ou eu estava mentindo. Se pedia socorro , coisa que fiz uma única vez diante de uma situação de violência doméstica, minha própria família chamava meu agressor pra me levar pra cara e me mandava “engolir o choro, porque casamento era isso”. Olhando de fora do meu próprio corpo e da minha história, não parece o melhor lugar pra pedir ajuda. Eu aprendi rápido a não pedir. Meus amigos também não se conectavam à minha de uma maneira que eu conseguisse perceber que a vida tinha outras coisas, outros formatos e outros tratamentos além dos que eu vivia. Meu conceito de normal era conturbado.
E quando escrevo isso, não estou falando do lugar de dor, e nem amenizando a responsabilidade daqueles que estavam ali comigo, meus responsáveis, minha família. Mas eu penso que todo mundo está no mundo vivendo pela primeira vez, então vai errar, uns mais outros menos, mas eu que não errei não posso estar presa nos erros de quem quer que seja e nem permitir me construir por inteira em cima daquilo que fizeram comigo.
Por anos eu não tive o respiro pra olhar o suficiente pra mim, eu estava na meta de construir a melhor vida possível para meu filho e retirar ele de uma roda do destino que não pararia de girar. E assim o fiz, até chegar aqui. A coisa toda em volta da doença crônica, da “experiência de quase morte” , a terapia, o diagnóstico de AH/SD, uma soma de fatores alinhada com a solitude me permitiram me olhar.
Entendi que jamais desejei alguém, que meu desejo sempre foi construído a partir do desejo do outro. Se alguém me desejava eu construía meu tesão, carinho e afeto em volta disso, quase como se estivesse agradecendo por aquela pessoa ter tido um olhar “bondoso” sobre a minha imagem. Fui desejar alguém aos 44 anos, e D. já me disse de largada “de mim você não terá nada”. Eu não procurava nada, não pedi nada, nunca sequer encontrei a pessoa ao vivo, mas o querer completamente descolado de ser recíproco me fazia bem. Era uma espécie de novo poder. Verbalizar que eu queria e que ele era o alvo daquele desejo. Sentir coisas virou uma meta de vida depois que aprendi a sentir.
E não que eu não sentisse amor por pessoas, afeto. Não nada disso, minhas emoções são absurdas, quando o assunto são amizades e meu filho então, arrancaria meu coração do peito se eles precisassem dele. Faço loucuras, tiro a roupa do corpo, dou casa, cuido da autoestima, quero fazer todos grandes e vistos. Eu amo. Mas não sabia desejar.
Aí, dia desses, veio o pensamento de como está sendo confortável e absurdamente saudável estar só e sem a obrigação mental de estar num relacionamento, como se uma parte da minha vida precisasse ser ajustada. Talvez porque todas as partes simplesmente desmoronaram ao mesmo tempo. Perdi a saúde, o trabalho, o sustento, o filho (que foi morar com o pai), a juventude, o peso. Foi como vestir uma capa de invisibilidade. E quem abriria mão desse superpoder? Mas diante dele cheguei a pensar por que eu sinto tanta falta de trabalhar, mas não de estar com alguém. Não ter mais D. pra conversar abriu um abismo grande, de perceber que ele ocupava esse espaço dos relacionamentos. Eu também sou constantemente questionada ou exposta a alguma situação de flerte, ou demonstração de interesse e fui percebendo que o interesse alheio estava mais me ofendendo do que me deixando lisonjeada. Não importava se vinha de homem ou de mulher, as demonstrações de interesse me irritam e me enojam e concluí que eu relaciono sexo a violência e desde esse dia penso muito nisso e naquilo que eu não consigo nomear.
ATO I
Quando eu tinha 19 anos, eu conheci uma pessoa no Orkut. Eu fazia parte de grupos de mulheres gordas, que faziam encontros pra fazer amizades. A princípio eram só mulheres, posteriormente foi aberto para homens. Eu comecei a conversar com um cara que dizia ter a minha idade, estudante do Mackenzie. Ele disse que queria me conhecer, marcou um encontro comigo num bar na Rua Maria Antônia, quando eu cheguei ele disse que estava muito enrolado com as provas dele mas que ele morava num apartamento no mesmo prédio do bar, quase do lado da faculdade. Eu acreditei, eu fui até o apartamento, passei pela porta e ele arrancou minha roupa, nem de longe tinha minha idade. Eu tremia TANTO, mas achei completamente natural, era o que homens faziam, era assim que se iniciavam relacionamentos. Eu nunca tinha nem beijado alguém. Na verdade tinha, Ed Carlos, um menino que veio falar comigo enquanto eu passeava num shopping com minha irmã e minhas amigas. Ele estava lá com os amigos dele, eu tinha 12 anos e ele não tinha mais do que treze. Andamos de mãos dadas, ele me deu uma caixa de bombom e anotou o número de telefone dele dentro, disse que ia passar as férias com a vó, mas que me ligaria. Ele ligou em um dia em que eu estava com minha irmã e minhas amigas, dava pra ouvir ele com os amigos dele num orelhão. Do meu lado as meninas riam, diziam que ele era feio, que não tinha nada a ver. Do lado dos meninos eles diziam pra ele me pedir em namoro. O lado das meninas venceu, eu fiquei com vergonha e disse que não gostava dele. Mas eu gostava. Chorei umas duas semanas e guardei todas as minhas “coisas boas” na caixa de bombom que mantinha embaixo da cama, e precisavam ser tesouros pequenos, ou não caberiam na caixa.
Eu não sei o nome desse cara do Mackenzie, ele me mandou embora depois que me pediu uma punheta e gozou. Me disse que era pra eu entender que ele não poderia ter nada comigo e não tinha me prometido nada e que não pegava bem ele ser visto com uma garota preta. Eu saí tão em orbita daquele lugar, lembro só que eu tremia , que era difícil ficar em pé e que eu usava uma saia indiana cinza e longa que eu culpei por ele ter me achado feia. Anos depois, eu já mãe, em 2008 ainda usava o mesmo e-mail de orkut, esse mesmo cara me achou em sala de bate papo e no jogo Second Life, eu jogava com amigas do trabalho e então ele decidiu dizer que me conhecia, e que eu era uma puta, me mandava mensagens, e eu sofria quieta e humilhada, pensando que eu tinha me colocado naquela situação e que a opinião dele sobre mim era correta. Eu era uma imunda.
ATO II

Eu saí do meu segundo casamento com um bebê, a miséria e nenhuma amizade. Minha família estava tentando segurar a vida do meu pai por um fiozinho de esperança então, era só eu e meu bebê. Depois veio V., a primeira mulher que eu amei, mas o relacionamento mais abusivo que tive em toda a minha vida. Eu não olhava para os lados, não tinha amigos, orbitava aquela mulher que não se sentia confortável e tinha ciúmes do meu filho. Como M. diz “quando era bom era muito bom, mas quando era ruim era muito ruim”. Saí dessa relação destruída, a ausência dela me causava dores físicas. E eu bebia, eu bebia muito acompanhada das minhas amigas. Meu filho passava as férias e os fins de semana com o pai, e nesses momentos eu me permitia beber e rir. Desesperada pra sentir alguma coisa, qualquer coisa diferente daquela dor física e dificuldade de respirar. Eu nunca me senti confortável socializando e o álcool me mantinha ocupada de alguma forma, tornava mais fácil estar entre pessoas.
Uma noite em 2012 saí com duas amigas, estava em segurança, afinal estávamos juntas, pegaríamos um Easy Taxi pra casa mais próxima então não precisaria voltar pra periferia de São Paulo que estava muito distante de onde estávamos. Dormi na mesma cama que minha amiga J., enquanto A. dormiu no sofá. Acordei no meio da noite com essa amiga me comendo. Eu estava tão bêbada que não reagi, não me mexi, lembro que pensei que meus braços pareciam feitos de espaguete cozido. Eu não reclamei, não gritei, não lembro de dizer não, não lembro de sentir nada, e acho que não fiquei acordada por muito tempo. Na manhã seguinte e no resto da nossa vida ela não tocou no assunto. Eu nunca nomeei o que tinha acontecido.
Anos depois, em 2016, já casada com B., durante o Acampamento de Feminismo interseccional recebi minha camiseta de Staff e fui experimentar e ela insistiu pra estar no mesmo banheiro que eu e ver se ficou bom, eu tive uma estranha crise de choro, uma reação que não consegui explicar nem pra mim e nem pra quem estava em volta, eu estava irritada, furiosa, queria sair da padaria em que estávamos. Fui ríspida e grosseira a ponto do meu marido estranhar e me perguntar o que estava acontecendo. Respondi que não estava confortável que J. visse meu corpo. Ele não aceitou muito bem a resposta e perguntou de novo “aconteceu alguma coisa?” Eu não respondi. Ele completou “mulheres também podem ser abusivas”. Eu desmanchei, nunca disse que sim, nem que não, porque eu não sabia o que aquilo era.
Meu marido era uma pessoa transmasculina, e desse dia em diante passou a recusar qualquer tipo de intimidade se eu tivesse bebido uma gota de álcool. Me senti punida por ter demonstrado que aquilo pode ter causado um problema pra mim mesma. Eu entendo o que ele tentou fazer, mas toda vez que alguém tentou fazer o melhor por mim, quebrou alguma coisa no processo.
ATO III
As minhas relações de amizade e comunidade se fundem com a minha existência. Eu sempre me entendi negra. Minha família toda é negra, o normal pra mim é a negritude. Muito provavelmente por isso somos todos politizados com relação a gênero e classe, mas só começamos a nos aproximar das questões organizadas em volta de raça a partir de 2011 quando eu passo a fazer o BN e escrever sobre ser negra no mundo. Não apenas falar sobre como me sentia a partir do meu olhar sendo a pessoa que eu era mas encontrar pares que viam e viviam experiência de mundo muito parecidas. Ali no BN eu não apenas me organizei em volta do assunto como encontrei ali uma comunidade. Aquele era meu lugar no mundo, era uma coisa meio “deus no céu, aquelas mulheres na terra”, era visceral.
Eu fazia parte da coordenação como cofundadora, e era natural precisarmos fazer reuniões. O grupão todo tinha mais de 1500 mulheres, mas éramos normalmente entre 4 e 6 mulheres coordenando textos, comunidade e eventos. Éramos mulheres de todo território nacional São Paulo, Pará, Minas, Bahia, Rio – e também de fora do território – fazendo o trabalho dos sonhos, mas sem ganhar um real, muito pelo contrário, nós pagávamos pra fazer o que fazíamos.
Nesses nossos processos, ali em 2013, uma membra do time de cofundadoras tinha se mudado para Minas, estava passando por uma situação complicada. Z. tinha uma namorada em São Paulo, a K. com quem terminou a relação, para morar com a P. por quem tinha se apaixonado. K estava fazendo todo um terrorismo, envolvendo família, importunando Z. porém elas estavam vivendo o próprio processo de fim, encerrar algo enquanto ainda se gosta da pessoa é complexo, sempre complexo.
CH. idealizadora de tudo que fazíamos soube que Z. viria para São Paulo e marcou um encontro em uma pizzaria. Z., que era minha amiga mais próxima, me perguntou qual o horario da nossa reunião de coletivo, e eu precisei comunicar que não sabia do que se tratava porque não tínhamos nada marcado. Z. então me pediu pra encontrar com elas na pizzaria porque estava desconfortável, ela iria de moto com K., mas que a ex não poderia ficar. Z. acreditava que CH estava interessada nela. Eu fui ao encontro delas e claramente gerei desconforto, mas depois do primeiro impacto passei a achar que era coisa da minha cabeça e conversamos muito. Naquele dia eu ia encontrar uma pessoa que eu estava conhecendo. C. se identificava como uma pessoa não binária, atendia por C. ou por L. , havíamos nos conhecido através de amizades em comum e seria nosso primeiro date. Eu havia comentado pra onde eu iria e pelo horario CH tomou a dianteira chamando outras mulheres para o mesmo lugar, elas esperariam o horário do meu date comigo. Pareceu tão inofensivo e cuidadoso que eu topei e lá fomos nós.
Fizemos um mini encontrinho de blogueiras, conhecemos pessoas e com a noite caindo verificamos quem era menor de idade e encaminhamos pra casa e ficamos nós as adultas. A ex, K. chegou de novo e propôs varias rodadas de shots de tequila. Quando L. chegou no date K. o convenceu que todo mundo deveria seguir se divertindo, ele topou, ficou, foi muito divertido até onde me lembro, e próximo da meia noite começamos a nos ajeitar pra ir embora. O metrô era bem próximo e L. sabia o caminho e foi nos guiando. K empurrando sua moto, eu, Z. e CH seguíamos o mestre. Comentei no caminho que precisava ir no banheiro, L. disse que passaríamos na porta do apartamento dele, que poderíamos ir no banheiro e depois seguir. Assim foi feito.
Subimos, fui no banheiro, tive aqueles momentos de gente bêbada em que você não sabe há quanto tempo está dentro do banheiro apoiado na privada ou na pia, não sabe se dormiu e está ali a 6 horas, ou se sequer fez xixi. Quando cheguei na sala dei de cara com todo mundo transando. L e CH, K. e Z. Lembro que me senti desconfortável com a situação, mas senti vontade de chorar porque gostava de L., não parecia uma situação justa. Mal sabia eu que o sentimento de traição só iria se expandir.
CH então me percebeu entrando na sala e disse que seria muito interessante ver K. transar comigo, eu disse não mas Z. falou para K que queria assistir isso. Mais uma vez eu não reagi, não disse não, não disse nada, eu nem estava ali. Mas quando aquilo terminou e eu pude ficar em pé novamente eu fui dizer pra L. que não queria ficar ali, e ele perguntou se eu queria “me trancar no quarto” e eu aceitei, me enrolei numa coberta e cochilei.

Nessa noite da orgia aleatória, CH ainda nos disse que pediria um carro pra deixar todas no metrô mais próximo então, e propôs que antes a gente ainda fosse conhecer um lugar que ela precisava apresentar a todas nós mas que seria uma surpresa. Ela tinha uma reserva e quando saímos do carro estávamos na Nefertiti, uma casa de swing. Aquilo tudo estava tão distante de mim. Z e K transando numa cama redonda coberta de couro com várias pessoas incluindo CH assistindo. Eu não consegui ficar ali e fiquei sentada no bar a noite toda. Me sentindo pudica, puritana, religiosa mesmo sem religião, incorreta, desencaixada, a estraga prazeres.
Z. voltou para minas. CH disse que precisava viver o luto dela porque amava Z (até aquele momento nada tinha sido dito e nosso projeto quase acabou por isso). Eu, L. e K. passamos a sair juntes. K. aparecia onde estávamos com certa frequência, pedia pra estar junto. K. tem uma filha que tinha a mesma idade do meu filho, morávamos perto, parecia correto deixar as crianças brincarem. Eu não conseguia atribuir a ela a situação que tinha acontecido. Eu não dei um nome pra tudo que tinha vivido ali. As pessoas começaram dizer que eu estava namorando a K. sendo que nunca ficamos além daquela fatídica noite em que eu não disse não embora não quisesse nada sexual com aquelas pessoas, mesmo com L. Um dia Z. me disse que K tinha prints de conversas que só seriam possíveis se eu tivesse enviado. Coisa que também não havia feito. Eu perdi a amizade de Z. K. desapareceu pouco tempo depois disso. Perder Z e ser acusada de coisas que eu não havia feito me matava, mas eu achei justo já que eu estava passeando com a ex da pessoa. Cheguei a ver os prints e não fazia ideia de como aquilo tinha vazado, tinha certeza que tinha sido outra pessoa. Hoje tenho certeza que aqueles prints saíram sim da minha máquina, porque afinal K estava dentro da minha casa, com acesso completo a minha vida por alguma razão.
Minha amizade com Z. foi retomada com o tempo, mas só agora em 2026 eu pensei com calma na maneira como tudo aconteceu. Só agora pensei na forma como L. me disse aquela noite “QUER SE TRANCAR NO QUARTO?” Ele estava lá, ele viu, ele achou violento e percebeu meu pânico. Eu tenho pensado em voltar o assunto com Z. e explicar novamente que nunca me relacionei com a ex dela, e uma das razões é que além do respeito por Z. eu “acho que fui estuprada”. Mas me esforcei pra tentar amar essa mulher porque me parecia ser o certo a se fazer considerando o que já tinha acontecido.
ATO IV
Meu casamento com B. terminou em novembro de 2019, no dia 18 de novembro de 2019. Eu me casei quatro vezes, em nenhuma delas vali o suficiente para uma festa de casamento, um vestido bonito, um anel de noivado. No dia 19 de novembro de 2019 eu viveria tudo isso pela primeira vez, aos 39 anos. Eu tinha um apartamento com móveis planejados, meu filho estava perfeito, eu havia pago o local, a roupa, o buffet. Meu casamento acabou no dia 18 e eu perdi tudo.
Estava passando por uma experiência de trabalho em um lugar tóxico mas que me pagava absurdamente bem, precisei implorar para que me mantivessem no quadro de funcionários para que eu pudesse reestruturar minha vida. Desejo concedido, eu engoli o choro e fui fazer meu melhor. Em dezembro de 2020 a empresa começou a sondar uma nova pessoa pra trabalhar conosco e conheci C.
Eu estava vivendo a morte de um casamento de sete anos e a perda financeira de uma vida, e C. parecia ser a companhia perfeita. Minha primeira leitura é de que se tratava de um homem gay, com seus namorados e seu mundo. Ele me tratava como uma rainha, e na minha experiência de mundo, seria impossível um homem que não fosse gay me tratar com alguma humanidade e sem nenhum interesse aparente. Senti como se eu tivesse encontrado minha pessoa.
No carnaval de 2020, duas de nossas amigas se casariam num imenso bloco de carnaval. Eu nunca tinha vivido um carnaval na vida. Tenho a impressão de que pareço mais jovem hoje aos 46 simplesmente porque já fui velha aos 20 e poucos anos. Estava ali a oportunidade de viver a multidão sem entrar em pânico, nós estaríamos na área VIP, pra dentro do cordão do Tarado Ni Você assistindo um casamento. A experiência do carnaval foi mágica, eu me senti absurdamente livre, confiante, confortável no meu corpo. Passei o dia todo com C. que seria DJ na festa pós bloco. Foi a primeira vez que usei MD na vida. Tudo foi tão bonito que o fato da assinatura do meu divórcio acontecer na quarta feira de Cinzas que chegaria passou a significar nada.
Nessa noite C. me beijou, achei fofo, meu amigo gay cheio de MD me beijando. A festa foi num hotel e eu não estava segura pra ir pra casa sozinha. Conversando com um cara aleatório no bar do hotel ele sugeriu pra eu ficar num dos quartos do hotel. Achei inteligente, ele me ajudou a conseguir um quarto, perguntou se poderia me encontrar nele depois, e eu disse que sim, dei o número do quarto. Subi pra minha suíte e cheguei e o quarto estava lotado de pessoas – o quarto havia sido locado duas vezes, pra corrigir o erro o hotel me mudou de quarto, me deu a suíte presidencial, e eu vivi momentos de felicidade tomando banho no meio de uma festa de carnaval. Dormi, quando acordei já era madrugada mas C. ainda iria tocar e depois iria para uma festa, eu fui ouvir o set e depois me despedi dele e da amiga. Voltei pro meu quarto de hotel. Passei uns 40 minutos abrindo um olho e fechando o outro e me divertindo com isso porque me parecia que a porta do banheiro mudava de lugar quando eu fazia isso, gerando minha própria ilusão de ótica chapada. Recebi uma mensagem de C. perguntando se poderia ir no meu quarto, eu não respondi, achei que ele ia na festa. Ele mandou mais duas mensagens, numa delas me disse eu subo ai e tenho maconha. A frase pareceu um feitiço feliz, falei o número do quarto, achei que ele só queria fumar comigo, algo que a gente fazia o tempo todo. Mas ele seguia me beijando até que precisei perguntar se ele não era gay :D. Bom não era, era bi, a noite foi muito legal, mas estávamos em pontos completamente diferentes do desejo e do sentimento. Até aquele momento eu não tinha visto ele como uma possibilidade afetivo-sexual, então não consegui construir interesse. Ele me perguntou mil vezes se estava tudo bem pra mim, se eu queria realmente estar fazendo aquilo com ele, porque ele não queria ninguém acusando ele de abuso depois. Brigamos no primeiro raio de sol da manhã e essa foi nossa tônica desse ponto em diante.
Ao mesmo tempo que me sentia péssima por ter transado com alguém em meio a meu processo de divórcio – logo ainda estava casada – me sentia ótima porque parecia ter voltado a respirar vida. Decidi viver ao máximo o carnaval, sair de maiô mesmo imensa de gorda, me exibir no mundo. Eu era uma mulher livre. Me diverti mais um dia e chegou o terceiro dia de carnaval, nas ruas da Barra Funda. Bebida, drogas, amigos, chuva torrencial. Em um determinado momento eu cansei, eu estava com 39, minhas companhias com 25, eu só queria um banho quente, muita roupa e dormir. Ninguém quis me acompanhar, pedi um uber. Ele chegou, olhei a placa, a cor do carro, mas não comparei a imagem do motorista. O carro arrancou na direção da minha casa, subimos um viaduto, o motorista disse “tomou muita chuva?” respondi “bastante”. Ouvi o barulho das travas das portas, ele manteve uma mão no volante e com a outra alcançou minhas pernas no banco de trás e disso “é, mas hoje está chovendo é na minha horta”. Eu não reagi, eu paralisei, ele fez todo o caminho pra minha casa, finalizou a corrida próximo do meu prédio, não abriu as portas, entrou numa rua sem saída quase na esquina de casa e me estuprou. Desse vez não tinha como ter duvidas. Eu apanhei tanto, eu não reagi, não gritei, ele rasgou quase todo minha roupa. Eu entrei no prédio passando pelo porteiro olhando pro chão, segurando o que dava da roupa, sangrando. Precisava não ser vista pelo meu filho que estava jogando videogame. Eu precisava pensar rápido e resolver. Só que durante todo o trajeto eu mandei mensagem pras pessoas que estavam no bloco comigo, que viram meu pedido de socorro tarde demais. Mas chegaram na minha casa. Uma amiga do trabalho KM e o namorado A. KM me encontrou sentada atrás da porta do banheiro. A. se encarregou de explicar o que tinha acontecido para o P. , contar que cuidariam de mim e levou ele pra casa da vó. Minha mãe e o resto da família nunca souberam o que aconteceu.
KM pediu socorro pra um adulto responsável, mas era muito tarde. Ela deitou em uma conchinha comigo na minha cama, as duas sujas de carnaval e tragédia e dormimos. AK chegou em casa às 6 da manhã, com um carro alugado, roupas velhas, lona e uma pá. Foi alguém que atendeu o pedido de duas mulheres negras. Bastou KM dizer, estou com um problema, não foi comigo , foi com a Maria Rita, preciso de você aqui. E ela foi, preparada pra eliminar um corpo. KM explicou que não era isso, e eu amei AK com todo meu coração, então ela me viu e disse “preferia enterrar um corpo”. E só nesse momento eu chorei e quis desesperadamente tirar aquela roupa e tomar um banho. Ela tentou me levar pro hospital sem banho mas não houve meio, eu não estava raciocinando.
AK colocou a roupa num saquinho, ela me tirou do banho, fomos as três para o hospital. Entrei na sala de exames com uma sensação estranha de que ninguém acreditaria em mim porque eu não tinha um corpo desejável, jamais poderia ter sido estuprada. Senti a dúvida até mesmo de KM. O que me separava delas e das outras enfermeiras era uma espécie de biombo de enfermaria, a médica foi falando em voz alta as lesões, marcas e ferimentos para que as que estavam fazendo o relatório anotassem. Conforme a coisa foi avançando KM começou a chorar e a médica disse ” se você vai ficar aqui dentro você vai precisar ser forte ou você não vai ajudar” – Engole o choro!
Me perguntaram várias vezes se tinha sido no Uber mesmo, como tudo tinha acontecido, pediram meu celular, olharam o app, perguntaram se eu tinha conferido placa, se o carro era aquele, e se aquele era o motorista. E não era. O homem que me estuprou era branco, e ali no app o carro era de um senhor negro. Meu mundo começou a desabar. Me senti burra.
Enquanto esperávamos uma policial pra dar continuidade no processo AK me perguntou o que eu queria fazer, que achava que precisaríamos de dinheiro e avisar no trabalho. Perguntou se podia contar pra B. que era a dona da empresa em que trabalhávamos, acredito que até pensando em um futuro processo judicial, e ela teve 2 reações ao ouvir KM, perguntar de tinha acontecido com KM, e quando ouviu que tinha sido comigo ela disse em alto e bom som “FOI O C.?”. AK respondeu que não, que tinha sido alguém desconhecido. Me pareceu completamente normal B. perguntar se foi C. já que ele era o único homem numa empresa com 13 mulheres, ainda mais considerando nossa proximidade. Me senti amaldiçoada pelas palavras que ele disse duas noites antes daquilo tudo.
A policial chegou, mais uns exames e antes de começar o processo todo a médica diz num tom de voz bem baixo, “metade desses hematomas não são de ontem, a gente vai precisar do nome das pessoas com quem você teve relações antes do que aconteceu ontem”. Ela colocou a mão no meu rosto porque acho que ela entendeu a minha situação. Eu estava com minhas companheiras de trabalho, de uma empresa que operava globalmente movimentando milhões, havia transado com um colega de trabalho também negro num universo branco de 14 pessoas 11 brancas e parte de uma elite muito elite, 3 negros, todos envolvidos num problemão. De novo eu precisava pensar rápido, o nome de C. já tinha surgido na boca daquelas mulheres, nosso emprego estava em jogo, não denunciar significava manter um estuprador solto, denunciar implicaria em fazer um homem negro se submeter a ter a vida revirada pela polícia. A voz dele na minha cabeça “não quero ninguém me acusando de assédio depois”.
Sentei na frente da policial e menti. Disse que não queria fazer a denúncia porque envolveria o homem negro cadastrado na Uber e o meu estuprador era branco. Ouvi meia hora de pedidos desesperados pra denunciar. Senti que AK, KM e B. ficaram decepcionadas. Que espécie de feminista eu era?
Eu nunca contei pra C. porque a gente nunca deu certo, porque a gente sequer tentou, e porque eu carrego ele tatuado em mim com todo potencial do que a gente poderia ter sido. Ele seguiu sendo alguém que pedia cuidados. Mas tudo que eu queria dele era que ele ouvisse e que ELE cuidasse de mim. E sabendo que eu não sei como receber esse cuidado, que me ensinasse.
Eu vivi uma noite legal, eu sangrei, assinei meu divórcio, minha cara foi estampada no meio da cidade, passei a tentar me apropriar do meu corpo exibindo ele sempre que podia pra provar que estava confortável com ele e que ele era meu, não funcionou, veio a pandemia, fui lamber minhas feridas sozinha.



FORA DE CENA
Eu tenho pensado muito nesses momentos, dos 4 só consigo afirmar com certeza que foi estupro em uma ocasião. Mas tenho pensado demais nos outros 3 momentos, nos que envolveram mulheres, naqueles em que eu fui enganada. Eu associo amor a servidão e sexo a violência.
No meio desse processo de me pensar como indivíduo e me olhar de fora do meu corpo com alguma compaixão, assisti Fúria, e me vi na Alice, a personagem da policial que literalmente pede pra ser agredida porque gosta da violência de uma forma muito específica. De como isso passou a fazer parte da minha vida depois de fevereiro de 2020. Como a gente senta na mesa de um bar com alguém e fala sobre isso, no meio de gente que fala de pegação e dinheiro?
Eu tenho minha medusa tatuada, eu me envolvo em relações tóxicas e tenho pavor absoluto de qualquer possibilidade de violência. Se alguém grita comigo instintivamente eu quero fugir, eu emudeço. Ao mesmo tempo que sexo violento me excita. Não sei se eu estou realmente quebrada ou se eu estou brava, amarga, descrente, com medo.
Talvez eu não possa proporcionar uma relação saudável pra alguém, talvez eu não saiba como construir uma relação deste tipo, eu não sei desejar, não sei receber coisas boas, sinto que falo e ninguém me entende, e quando se esforçam pra entender não aceitam que meu tempo de entendimento de mundo tem outro ritmo.
Eu preciso de tempo, eu vivo em outro tempo, outra velocidade. Eu acho que fui estuprada, acho que sofri violências. Acho que existem sequelas. Mas não tenho certeza nem que posso olhar por esse prisma, e nem sei se não fui eu que me colocando em situações perigosas acabei causando isso pra mim mesma. Eu não acredito em culpa, logo não acredito em desculpa. Sou apegada a ideia da responsabilidade e isso é muito confuso pra mim.
Eu nunca falei sobre as coisas que acabei de escrever aqui. Nem pra amigos, nem pra amores nem pra minha psicóloga. Não sei ainda o que vou fazer com tudo isso, mas queria chegar num entendimento. Eu também não escrevo isso de um lugar de mágoa , de dor. Mas tenho a sensação de que deveria sentir alguma coisa. Acho que é a minha relação com o tempo das coisas, tempo de sentir, tempo de entender, tempo de elaborar.
Levei 34 anos de vida pra conseguir entender que Ed Carlos foi a única coisa doce que aconteceu na minha vida no campo dos afetos.
–
obs* É momento de falar de política, eu sei, e eu tentei. Deixei pra falar e pra fazer política em outros espaços, mas nesse aqui que é tão meu, acredito que precise usar pra tirar da cabeça e do peito aquilo que eu estou carregando enquanto sou política, festa, amor, cuidado, amizade, sorriso, trabalho e imagem.
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