Mercado Livre “vendia” negros por R$ 1,00
Quando eu escrevi Mercado Livre vende negros a R$ 1,00 eu jamais imaginaria o quanto isso impactaria na minha vida. No Blogueiras Negras eu fazia politica com a escrita, falava de moda, de amor. Fui uma gestora de comunidade voraz. Eu tinha uma relação visceral com o projeto, mas até esse post não estava claro pra mim o tamanho do que a gente fazia, nem os perigos que a gente corria.
Esse texto e imagens circularam mundo, e felizmente, mudaram regras. De conduta, de negócios. E depois dele eu também fui perseguida, ameaçada, agredida, tive minha família. Nenhuma de nós estava preparada para o que viria. Eu não estava preparada para o que viria.







Em 2014 não era de “bom tom” apontar racismo, não existia um entendimento muito claro sobre racismo estrutural, uma porção de conceito sequer existia.
Deste post em diante a minha/nossa noção de alcance, poder de mudança e cuidado mudou completamente. Em partes eu lamento, porque poderíamos ter feito muito mais do que fizemos se tivéssemos um objetivo comum. Eu não queria ser influenciadora, queria mudar o mundo. Parte das minhas companheiras de projeto queriam ser relevantes, mesmo que o mundo ficasse exatamente da maneira como era. Nos faltou alinhamento. Nos faltou proteção, informação e cuidado diante da noção de poder.
Me faltou a visão de que essas seriam as mulheres que largariam a minha mão, uma vez que eu era uma “ferramenta”. E que ao perder a minha comunidade, minha propriedade intelectual, meu espaço de ativismo, eu experimentaria uma morte em vida.
De lá pra cá muitas mudanças foram aplicadas, de avanços com relação a punição a pratica de racismo até a mudança cultural com relação a ser explicitamente racista. Autoras surgiram, livros que traduzíamos artesanalmente ganharam editoras. Caminhamos pra frente a passos largos, e agora retrocedemos. É quase bonito ser racista, e agora não denunciamos e fazemos rodar o mundo, nós cancelamos e cancelamento não é nada. O cancelado de hoje é o influenciador com cursos online de amanhã.
Eu nunca mais sai por ai testando plataformas. Entendendo o que pode e não pode ser comercializado, questionando porque não posso colocar um bebê ou uma criança a venda, mas se eu disser apenas “negro de pequeno porte” é totalmente possível. Não posso vender drogas online (será?), mas talvez ainda seja possível vender um negro que não entra na categoria humano, coisa ou bicho. Nunca mais procurei porque sei que vou encontrar essas possibilidades nos lugares mais inesperados.
12 anos separam a publicação original desta de hoje. E poderiam ser anos luz, onde sociedades inteiras nascem, morrem e se modificam, e no nosso caso esse salto quântico foi para trás.
✴︎ Este post faz parte do BEDA 2026 do Entreblogs
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