A história da foto
Eu vivi uma relação de amor e ódio com meu pai.
Meu pai foi um homem alcoólatra, um clássico nas famílias negras. Era um homem inteligentíssimo e acredito que cheio de sonhos não concretizados.
Meu pai estudava Física na USP, Economia na PUC em plenos anos 80. Ocupava lugares que definitivamente não “eram pra ele”. Meu pai sonhava com galáxias e estrelas, astronomia era parte do universo incompleto dele.
Meu pai era um homem politizado, fundador de partidos, ativista, militante, socialmente engajado.
A vida fez dele bancário, numa rotina onde ele estava morto de segunda a sexta, e vivia apenas nos finais de semana. Ele é a história da pessoa engolida pelo capitalismo. Vivia uma depressão terrível, sem diagnóstico. Hoje eu acredito que ele bebia da forma como bebia pra suportar estar vivo e performar normalidades.
Eu era maluca por ele e ao mesmo tempo odiava. A versão dele bêbado era o completo oposto da versão sóbria. Eu tinha medo, raiva, eu me desgastava.
Na minha adolescência eu passei boa parte dos meus dias na companhia dele. Ele tinha horários estranhos de trabalho, meus irmãos estudavam ou trabalhavam, minha mãe também ia pra aula de manhã e a tarde. Era só eu e ele. Eu precisava alimentar, cuidar, garantir que ele ficasse vivo. Nesse processo eu vi ele quebrando pratos nas paredes porque a comida não estava do agrado dele, eu ajudei a apagar um incêndio no carro porque ele deixou o motor fundir, eu ia buscar ele na rua numa fase em que ele caia porque as pernas paravam de funcionar, e precisei invadir um banheiro e carregar ele nu até o quarto, no colo, porque ele havia caído no chuveiro. Aos 15 anos numa discussão terrível sobre a bebedeira dele eu dei um tapa no meu pai. Ele derrubou a lagrima mais dolorida que eu já vi alguém derrubar. O homem que jamais ergueu a mão pra mim levou uma bofetada, e eu jamais me perdoei.
Ainda assim eu era maluca pelo meu pai, gostava de ficar entre os livros dele, gostava do cheiro do jornal e dos cigarros. Nossa conversa era boa. E a gente ria quando minha mãe esbravejava que nós eramos iguais. E ela estava coberta de razão, eramos mais parecidos do que gostaríamos talvez.
As minhas primeira memórias de mundo envolvem meu pai. Meu aniversário de 2 anos, uma quantidade de homens barbados que me confundia e eu segurando nas pernas deles pra que eles olhassem pra baixo e eu identificasse meu pai. Lembro de um pesadelo terrível em que meu pai estava no fundo de um poço, ele pedia água e davam pra ele pimenta – acho que era minha maneira de elaborar porque ele passava mal e vomitava- eu devia ter uns 3 anos.
Meu pai descobriu um câncer de pulmão no mesmo ano em que eu casei. Ele mentiu pra mim fingindo estar tudo ótimo porque não queria que eu desistisse de casar. Ele obrigou a família toda a mentir. Soube do câncer quando já estava casada e morando em outro estado. Eu fui ferida de morte, de uma maneira que ainda não consegui processar. Eu não sei que atitude eu teria tomado, mas me senti enganada. Mentira é uma questão muito grande na minha postura rígida. E se antes eu não me perdoei pelo que fiz, agora era eu quem não perdoava.
Fiquei brava por meses, ainda hoje quando esse tema volta a tona eu me sinto traída. Minha família não entende e jamais entenderá. Eu também não entendo.
Meu pai me visitou 3 meses depois de retirar metade de um pulmão. Seguia fumando loucamente, bebeu 46456634565 amostras de vinho diferente na visita, sentiu o frio curitibano no osso, mas se divertiu. Se recuperou, mas descobriu então um mieloma múltiplo.
Deram pra ele de 6 meses a 1 ano. Ele viveu mais 11. Viu o neto nascer, me viu de volta a São Paulo. Levou o menino no futebol, no tênis, na escola. Ensinou matemática, a ler, a fazer piada.
Ele faleceu em 2016, já fazia mais de um ano que tinha desistido da quimioterapia, estava fazendo hemodialise diariamente. A vida tinha ficado cansativa demais.
Perdi ele em 2016 e tatuei ele em mim em 2018. Na foto estou eu, ele e minha “irmã” – na foto ainda éramos apenas primas, ela se tornaria minha irmã e viria morar com a gente aos 13 e detestaria estar na tatuagem. Tatuei a foto porque não só me lembro do dia, do toque do vestido, dessa nossa primeira viagem em família, como me lembro da sensação de segurar na mão do meu pai.


Dele eu herdei os livros, os vinis, a vontade de estudar, a permitida alegria do domingo. Herdei Al Jarreau, Stevie Wonder, The Isley Brothers e Djavan. Meu pai vai sempre estar no som do domingo. E pra sempre eu vou carregar ele na memória, nas poucas fotos que temos e na pele.
For the Love of You, que ele dançava e batia palmas. Todos os domingos são do Sr Luiz Roberto.
Celebrem as pessoas que vocês amam. E quer saber, se você leu até aqui, deixo o convite pra dar o play na musica, aumentar o som e dançar batendo palmas independente de como esta sua vida. As coisas podem ser boas mesmo quando estão ruins. E se você tem filhos, dance com eles e seja feliz na frentes deles. Se permita a alegria, mesmo quando existir muita dor. Isso muda TUDO.
✴︎ Este post faz parte do BEDA 2026 do Entreblogs
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Eliel
que sensação agridoce ler você falando do seu pai nesse exato momento, me cairia bem demais escutar essa música batendo palmas, mas tem pessoas dormindo por perto que tornariam meu dia menos saboroso se acordassem irritadas comigo - fica para amanhã, quem sabe
Dulce Nicolle
Nossa, nem sem como descrever o que eu senti lendo o seu post. O ato da traição e da mentira é algo que as pessoa não entendem como machuca, mesmo que tenha sido "para o bem" ou evitar algo pior, ainda assim dói, porque te tira o direito da sua própria reação. Não adiante explicar, ás vezes nem tem como explicar. Me doeu ler sobre da depressão do seu pai. Eu só conheci pessoas machucadas e doloridas pela vida que vem dessa geração. Meus pais são da geração de 69-78, respectivamente, e eu só vejo neles dor, principalmente na bebida. É realmente um toma lá da cá; pena e raiva.