Heresias e pensamentos rígidos

Eu quero escrever sobre as coisas que estou lendo, sobre as minhas idas semanais a biblioteca do bairro, sobre as pessoas que encontro por lá, os assuntos, a estranheza que eles demonstram com o fato de que parece que ninguém vai lá atrás de livros, nunca vi crianças ali, mesmo com uma sala de computadores com video games.

Quero escrever sobre o segundo em que percebi que não sei o nome dos meus bisavós, que não sabia que minha avó materna teve irmãos. Ouvi alguns nomes pela primeira vez agora aos 45 . Que isso e a lembrança de abrir uma arvore genealógica de séculos no curso de restauro e conservação de pepeis esfregou com toda sua materialidade a escravidão na minha cara. Que quero achar meus nomes, sobrenomes, quero achar os meus e quero fazer disso um projeto.

Quero escrever sobre as conversas que tenho tido com C. , sobre como nossos pensamentos são parecidos, sobre o quanto eu queria sentir muitas coisas e todas elas completamente diferentes daquelas que sinto.

Quero escrever sobre TDPM, sobre ter visto uma pessoa mais uma vez reagindo a uma história da minha vida de uma maneira que eu não esperava. Que é através desse tipo de reação que eu percebo que as coisas foram graves quando aconteceram. É quando eu percebo que não recebi o tratamento correto. O susto na pergunta “como você sobreviveu?” – eu nunca tinha percebido que eu tinha “sobrevivido”, era mais uma coisa que eu achei que fosse assim pra todo mundo.

Quero escrever sobre minha dificuldade de ler Sul & Oeste da Joan Didion por causa da quantidade e referencias locais. Eu sinto que precisaria ler com o mapa do lado. E eu compro mapas por causa de livros. Comprei o mapa mundi porque queria viver a experiencia de Migrações de Charlotte McConaghy (que virou um dos meus livros preferidos) e como fiquei feliz em saber exatamente onde estava o Mar de Bering no Alasca e perceber que o barco do livro estava passando pelo mesmo lugar da pesca de caranguejo de Pesca Mortal.

Eu tenho muitas coisas pra escrever, mas meu sentimento com relação a escrita e ao BEDA é que me traí e publiquei posts sobre trabalho, trouxe a tecnologia para meu espaço seguro das outras coisas e não consigo parar de pensar nisso. É nesse momento que não consigo negar que eu tenho mesmo pensamentos rígidos. Que o trabalho se tornou um trauma. Que minhas regras pŕoprias são as coisas mais difíceis de encaixar no mundo.

Um dia preciso contar a minha teoria sobre o amor, eu não sei existir fora da minha própria teoria. É quase como ter uma doutrina religiosa particular que só se aplica a mim. Racionalmente eu sei que não é algo real, e ainda assim eu vivo aquilo que eu penso.

Ainda não sei o que eu vou fazer com os dois posts anteriores a esses, to encarando como um desafio mantê-los ali, e também mais um ponto pra levar para a terapia.

Cada dia que passa eu separo mais trabalho de vida pessoal, e não faz nem 3 anos que eu era o meu trabalho. Quando me apresentava só tinha qualidades profissionais, interesses e metas profissionais. Eu verbalizava que não sabia o que eu era se não fosse o trabalho. Mas sem trabalho o que eu sou? Sem tarefas, sem ser a mãe, a desenvolvedora, a ativista, a negra… quem eu sou?

Eu não faço ideia, e também não sei porque o trabalho virou um trauma, eu tenho algumas ideias, que foram elaboradas em terapia, mas não entendo porque isso não passa. Enquanto não passa vamos seguindo, descobrindo novas formas de fazer as coisas, outros caminhos.

Amanhã eu penso sobre o que fazer com os posts, depois de amanhã penso de novo. Por hoje eles vão ficar ali, mas são como um pontinho preto na minha vista.

Eu estou desorganizada, o BEDA inclusive me mostra isso com mais clareza. Tenho mais compromissos do que poderia assumir e muito dependente dos tempos dos outros e acho que é por isso que não estou conseguindo escrever exatamente sobre o que eu gostaria. A partir do dia 17 as coisas vão ficar ainda mais tensas. Mas eu vou olhar pra isso com carinho. Por agora, vou ali tirar meu bolo de limão cravo do forno e ler mais um capitulo de Pachinko 🙂

✴︎ Este post faz parte do BEDA 2026 do Entreblogs

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1 Comentários

ALINE

É muito doido essa coisa do trabalho né? Mas é um processo também se ver além do trabalho. E você passou a vida toda fazendo isso, é normal que parar seja difícil.

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