Ela e o mar
Nem sei se este é exatamente o melhor momento para escrever este post em meio a polemica gerada por uma das pessoas que fazem parte da minha lista de inspirações. Mas já deixando meus 2 centavos sobre o assunto. Tamara Klink pediu para as pessoas não comprarem mais seus livros, que já é um best seller (e ouso aqui dizer, não porque é uma literatura fenomenal tá, é quase um guilt pleasure). As pessoas reagiram, defenderam os livros, a cadeia produtiva , a editora. Tamara se desculpou. Eu particularmente não acho que cabiam as desculpas, até porque atribuíram a ela coisas que ela não disse, desconsideraram que ela pede para que o livro DELA não seja comprado, mas não falou nada sobre outros livros e a critica não abarcou contradições do capitalismo. Estamos todos dentro de um mesmo sistema, e óbvio que o dinheiro é muito importante, mas a maneira como produzimos e consumimos não deveria ser normalizada. Claro que outras industrias como a da moda, o agro e a minha querida tecnologia com deus data centers bebedores de água e todo lixo eletrônico são problemas mais urgentes, mas a industria do papel também faz parte do todo e merece pelo menos uma analise. Mas enfim, não existe uma maneira de discutir reduções, soluções , alternativas que não vão esbarrar nas contradições. Nas pessoais e nas sistemáticas.
No afã de demostrar uma opinião muito inteligente e um ponto de vista critico, a quantidade de conteúdo, vídeo, reels que foi produzido a toque de caixa pra falar do assunto só me mostrou que a interpretação de texto morreu e que é mais importante parecer inteligente ou entendedor do que realmente ser. Triste. Mas amanhã todo mundo já esqueceu. Além da pataquada me admirou, mas também sem nenhum surpresa, o tom da critica. Quando uma mulher erra, a violência imposta para corrigi-la é muito desproporcional. Não parece que a intenção é criticar mas sempre eliminar. Se essa mulher for negra a diferença é que será garantido que ela será eliminada e terá prejuízos pro resto da vida. É como eu dizia para uma liderança minha no passado, uma mulher branca e bastante privilegiada :
“Mil palavras minhas não alteram em nada na sua vida. Uma palavra sua, verdadeira ou não destroem a minha vida” – e de fato destruiu, e nem foi intencional, mas destruiu.
E que mulher nunca sentiu a violência da critica? Eu desconheço.
Mas o que eu queria expor é sobre como eu me apaixonei pelo mar e como isso aconteceu e esta presente na minha vida.
Eu não moro, nunca morei num litoral, não vou a praia, mas conheço o mar. Depois de quase morrer em 2023-2024 tive bastante tempo para olhar pra mim e assim o fiz. Eu estava procurando coisas que me deixassem feliz enquanto eu me recuperava de uma cirurgia e uma dessas coisas era o programa Pesca Mortal do Discovery.

Pesca Mortal está no ar na Discovey desde 2005 e eu acho que eu assisto desde a primeira temporada. O programa é meio reality, meio documentário sobre o que acontece durante a pesca do caranguejo-real e do caranguejo-das-neves no mar de Bering no Alasca. Das embarcações aos conflitos familiares. Eu sei, é bizarro gostar de programa de pesca ( mas eu gosto, de programas e games de pesca, o meu jogo do momento , só pra constar, é Dredge) mas a pesca de caranguejo no Alasca é considerada a mais perigosa do mundo ( quem diria que a pesca mortal era mortal mesmo? ) apesar de ser absurdamente lucrativa. Um caranguejo-das-neves num leilão no município japonês de Tottori atingiu um peço record de 42.000 euros. Um caranguejo, uma unidadesinha R$ 248.080,69. A torcida é pra que um covo (a gaiola de pesca) suba cheio e garanta a vida da tripulação e de toda a sua família. Sim tenho dó dos caranguejos e obviamente preferia que nenhuma pessoa arriscasse a vida pra ter casa ou garantir educação para os filhos, mas voltamos pra reflexão sobre contradições e o capitalismo aqui. Mas acontece que toda vez que terminava um episódio eu queria o que? Fazer parte da pesca do caranguejo real, ganhar um absurdo de dinheiro sim, mas era mais pra estar no mar, desafiar meu corpo todos os dias, viver a rotina terrível do convés e talvez pegar escorbuto talvez.

Nessa época outro programa que eu amava assistir era Below Deck – mais um reality e eu nem sei explicar que eu não sou a maluca do reality, ou talvez seja, não sei – sobre a vida da tripulação de Iates de Luxo. Meus personagens preferidos sempre são os capitães. E ai que a série apresentou a capitã Sandy de Below Deck Mediterraneo.
Meus amigos, a capitã Sandy tem o próprio iate, faz manobras surreais pra atracar e desatracar o barco, come o uc da tripulação, ela estimula outras mulheres na carreira, ela em momento algum escondeu ter uma esposa, ela é engraçada, ela é bonita, é uma sapatão dos mares 🎉 . E depois de assistir, eu não queria ter a capitã Sandy, eu queria SER a capitã Sandy. Mas também queria ser o capitão Lee, então …
Tanto a Pesca Mortal quando Below Deck foram minhas fantasias de adulto, aquela coisa que eu faria se pudesse escolher, independente de outros fatores. Quase num delírio de “O que você quer ser quando crescer”, só que eu já estava com 43 anos.
Nascia ali a vontade de estar perto do mar, já que eu precisava mesmo rever minha profissão, que a quase morte e a perda da visão do olho esquerdo eram consequência do meu estilo de vida workaholic, radicalizar parecia ser o caminho. Mas infelizmente eu sou uma controladora pessimista. Talvez realista, mas ainda assim controladora, não com pessoas, mas comigo e claro que achava que nada poderia ser mais delirante do que a relação eu e o mar. A menos que eu linkasse isso a trabalho. A Engenharia Naval, a Biologia Marinha ou a Oceanografia poderiam me colocar exatamente onde eu gostaria de estar. E munida com esse pensamento, tomei a decisão de prestar ENEM pela primeira vez na vida e ir atras das profissões do mar …
CONTINUA EM OUTRO POST …
✴︎ Este post faz parte do BEDA 2026 do Entreblogs
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Tati
Vi o cancelamento dela, e sinceramente, também não entendi. Concordo que ela é uma pessoa com uma vida que quase nenhum de nós consegue ter, mas ainda assim acho legal que ela tenha ido se arriscar da forma como foi e continuo querendo ler o livro. Achei muito bonito você refletir dessa forma sobre o mar! A última vez que o vi foi em Copacaba, no RJ, e lá eu só conseguia pensar que céu e mar eram a mesma coisa, de tão bonito. Limonada
Uma garota de 30 anos
Oi!! Nossa, também achei uma coisa totalmente descabida essa crítica em cima do que ela falou. Na verdade nem cheguei a entender muito bem o motivo de tanto alvoroço. Acho que é mais por esse caminho que você disse mesmo, de uma desproporcionalidade quando o trato é com as mulheres, e me entristece também o fato dela ser tão jovem e ver a sua fala tomando proporções que nem mesmo eram parte do que ela propunha ali. Enfim, espero que isso sirva para que ela cresça mais e continue compartilhando a sua história. Também tenho um super fascínio por esse tipo de programa, pelo mar e pela pesca – ainda que, como você bem colocou, saiba de toda a problemática que isso envolve. Acho que no fundo a gente acaba se fascinando por esse mundo que é uma coisa totalmente aberta, crua, selvagem. Sei lá... estou divagando aqui com você. Desde muito nova eu gostava de ler certa literatura marinha/naval. Já li os trabalhadores do mar, de Victor Hugo, e O lobo do mar, de Jack London. Uma coisa apaixonante! Um dia vou ler também Moby Dick, que é nessa mesma linha. Adorei seu texto e estou super curiosa para saber o que aconteceu com você depois do ENEM. Também já tive delírios com Oceaonografia, a Biologia etc e tal. Beijos <3
Aline
A gente sabe que o peso da crítica quando o "erro" é cometido por uma mulher é gigantesco. E nesse caso, estamos falando de uma mulher branca e agora todo mundo já esqueceu. Se fosse uma mulher preta a coisa seria ainda mais violenta. Infelizmente as redes sociais criaram um monte de especialista em nada que acha que tem que opinar sobre TUDO! Fica um monte de opinião rasa, cheia de viés de confirmação onde não houve 10 minutos de análise sobre o assunto antes da opinião ser emitida. Porque precisa aproveitar o hype, porque quer ser o primeiro a falar... triste. Sobre o mar eu acho fascinante, porém tenho medo. Meu marido trabalha em um navio plataforma de petróleo, então acho que você ia gostar de conversar com ele sobre trabalhar no meio do mar! Espero que você consiga estudar mais sobre sua paixão. Um abraço.