Ouvir o que não tem som
Entre meus desafios pessoais, manter o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal e entender o que é um padrão ou pensamento rígido meu, com relação ao mundo é sem sombra de dúvida a minha maior dificuldade.
Eu achava que tinha uma série de dificuldades de comunicação, mas dificuldades do tipo que poderiam ser resolvidas com algum estudo, livro, com o profissional certo pra que eu me comunicasse de maneira com que as pessoas entendessem o que eu estou dizendo. Um alinhamento emocional também que fosse garantir que eu conseguiria seguir falando sobre algo sem me exaltar, sem me decepcionar, sem querer desistir da conversa. Eu tinha certeza absoluta que a falta de entendimento que eu sentia era culpa minha, alguma coisa muito errada relacionada a meu comportamento.

Todos os problemas que eu já tive na vida tem relação com coisas que eu disse. Comentários que não são aceitáveis, análises profundas que encerram questões mas que ninguém pediu, uma noção moral e ética que eu acabo deixando clara, uma percepção pessoal que eu exponho. Meus grandes problemas chegam no meu colo desta forma. Eu prejudico meu pessoal, meu profissional, e indiretamente meu financeiro porque eu falo coisas demais. Coisas que do meu ponto de vista deveriam ser naturais de serem conversadas. Eu acho tranquilo pegar uma caneca de café pra poder apenas comunicar ” acho que nosso casamento acabou” ou ” esse projeto vai fracassar”. Principalmente depois que eu avaliei todas as possibilidades de uma situação e pra mim é só um fato, comunicar o quanto antes liberta todo mundo pra mudar de rota. Eu me sinto assim, mas entendi tardiamente que não é socialmente aceitável.
Ao longo da minha vida eu desejei inúmeras vezes apenas parar de falar. Eu acredito que existem pessoas que morrem da vontade de morrer, independente de doença, das idades. Elas não querem estar vivas e então partem. E não falo de suicídio. Pessoas que dormem e não acordam mais, cônjuges que morrem logo após a morte dos seus companheiros, não é algo que venha da saúde mental ou ativamente porque viver está doendo (mas também pela dor). E acreditava que se a minha vontade fosse imensa, eu acordaria sem a capacidade de falar, e aí não haveria nada que eu pudesse fazer sobre isso. Eu poderia só não exercer a ação da fala, seria bem simples e às vezes eu coloquei esse delírio em prática, mas fica difícil sustentar. Falar era problema e eu não queria. Pra que falar se não tem alguém pra entender?
Foram anos de terapia até o diagnóstico correto, e uma das coisas mais libertadora pra mim foi entender que eu realmente não me comunico como o esperado, que eu estou observando coisas que não tem valor pra muita gente, que as pessoas não estão entendendo o que eu estou dizendo e não é falta de sintonia ou maldade, e nem sou eu me comunicando com grosseria ou arrogância. É só um jeito diferente de fazer as coisas. Que a minha vontade de me ausentar das palavras é só um esgotamento de tanto fingir e me ajustar ao que parece que as pessoas querem. Me libertou em partes, em outras me fez prestar muito mais atenção a isso em certos ambientes e a intensificar meus esforços pra “parecer normal”.
Eu tenho me exposto mais, em grupos, em coletivos, em aulas e cursos. Fazendo uma tentativa de sair do profundo isolamento que é tão confortável pra mim. Tem um curso específico de uma linguagem de programação que quero aprofundar que exige que a gente trabalhe num squad. Até aí, vida normal, é como trabalhar em qualquer equipe de tecnologia e faz todo sentido, mas ontem eu vivi um desgaste que fazia tempo que não acontecia, o de explicar algo muitas vezes e a pessoa não entender uma palavra do que eu estava dizendo. Eu entendi inclusive que a pessoa não entende o que eu falo e tão pouco o que eu escrevo. Eu perdi tanto a minha paciência num ponto que eu emudeci de choque e simplesmente desisti. Não houve briga, ninguém se exaltou, não houve grosseria, mas foi muito frustrante desistir e aceitar que o diálogo não avançaria. Hoje vamos fazer a apresentação do projeto, que eu não me ofereci pra apresentar mas ganhei a tarefa. E eu ganho muitas coisas quando o assunto é servir, desde que me conheço por gente, e isso está me incomodando profundamente, mas eu estou me esforçando para me manter em silêncio. Eu na verdade tenho muitas palavras e nenhuma delas é boa, e sei que não vão sair de mim de uma maneira “apropriada”.
Hoje eu estou pensando muito sobre esse curso porque eu já havia me frustrado com um sistema de gamificação que me roubou pontos por falha sistêmica e quando solicitei correção me disseram que nunca havia acontecido e quando outras mulheres pediram a correção no mesmo dia, sob a mesma falha, os pontos foram ajustados. Para elas. Nessas horas eu gostaria de ter um senso de justiça quase nulo e uma ética bem corrompida. Mas só me restou frustração e eu tenho que lidar com ela sozinha. E parece bobo, são só pontinhos num jogo que não vale nada. Minha tendência natural seria olhar isso de fora e me sentir infantil. Mas eu tomei a decisão de aceitar como eu estou me sentindo sobre isso, sobre ter que aceitar a marca de um erro que eu não cometi em nome da harmonia coletiva. Hoje eu vou me permitir a não satisfação para que amanhã isso não virá de novo o desejo de não fazer barulho algum no mundo. Vou apresentar o projeto, entregar minhas atividades e fazer minha parte claro, mas frustrada, e tá tudo bem me sentir assim. Acho justo que eu mesma me acolha, porque se nem eu fizer isso, quem fará? E vou ajustar minha comunicação pra que ela seja mais assertiva, e nada pode ser mais assertivo do que o NÃO. Não posso, Não quero, Não Vou, Não Aceito.
Em muitas religiões, cristãs, pagãs ou de matriz africana, agosto é um mês que pede silêncio. É quando o sol toca a terra, para as bruxas. Quando Deus pede que o silêncio permita a revisão interna. Quando Omolu e Obaluayê , o velho e o jovem, o tempo que passou e o que ainda virá estão presentes. Agosto traz a cura através da transformação num universo do invisível. Que meus silêncios de Agosto me permitam curar coisas em mim e transmutar situações.
Que em agosto, eu possa ouvir os que não tem som.
* Este post faz parte do BEDA 2026 do Entreblogs
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Eliel Jesus
Me pergunto o quanto a humanidade ganharia se a nossa comunicação fosse clara, se todos entendêssemos o que o outro fala, se não dependêssemos de nossa boca, língua e repertório para sinalizar nossas emoções. Mas também, o quanto a humanidade perderia? Espero que agosto seja a cura que você precisa!