Eu queria poder poder falar. Falar de tudo aquilo que não te interessa ouvir. 

Se hoje fosse o dia permitido da fala sem constrangimento eu te diria que não estou nem feliz nem triste, mas sinto medo. Não me assusta perder o fio que Ariadne segura do lado de fora do labirinto, eu sempre volto pra luz no meu turbilhão de emoções. Me assusta ter de guardar todas essas emoções para parecer algo aceitável. 

Me cansa o tom blasé que preciso ter para me interessar pelos seus interesses amorosos, me cansa saber as novidades sobre o cargo x ou y que não muda quem você é pra mim. Me cansa fingir que me importo com as vitórias ou derrotas que você tem diante da fala de alguém que não conheço. Me cansa saber a opinião da vizinha de longa data sobre a melhor atitude diante de uma fofoca. De maneira geral esse é o mundo que me cansa. Mas eu preciso ser parte dele. 

Se você quisesse escutar o que eu trago no peito, ia saber que estou particularmente apegada as musicas que meu filho canta quando esta feliz ou triste. Que acho particularmente interessante o apego entre meu gato preto e o gato do vizinho, dois machos, que se encontram todas as manhãs no quintal pra um longo abraço, e um pouco de sol, todos os dias, o mesmo horário. Te contaria que achei flores amarelas brotando no quintal e achei de bom tom colher e colocar no meu altar, mas fiquei triste porque a noite elas se fecham e uma vez arrancadas de suas raízes não voltam a abrir em pétala. 

Seria o momento de te contar que meu cérebro não derrete o tempo todo, e que se não existe ninguém por perto é como se não existisse nada acontecendo com ele. Que não tenho ódio, inveja, desejo, vontade de gente, porque é gente que me força a fingir ser uma coisa que eu não sou.

“A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não tivesse uma” 

Sobre meu cérebro, queria poder te mostrar tudo que existe nele, você saberia que na maior parte do tempo tudo é tão bonito e tão legal (apesar de muito rápido) que não dá vontade de sair dele. Existem cores sem nome, soluções pra problemas que ainda nem são problemas. Ah se você me ouvisse, sem se constranger e mudar de assunto. 

Por que ser tudo que eu sou constrange a você e não a mim? Eu fico sempre sem saber se essa muralha existe porque te lembrar a anormalidade das coisas te entristece, ou se é porque você tem medo que eu me esconda em minha caverna e não saia mais de lá, se tocar no assunto. Por que quando as coisas realmente doem o conselho pra mim é não falar sobre? Me parece um contrassenso.

Se não posso falar do que é bom e nem do que é ruim, o que estou autorizada a dizer? Parece que existo para ouvir e concordar. Acenar e sorrir. E ainda assim todo mundo terá uma sugestão sobre como, uma mulher adulta e independente, que inclusive cria, mantem e educa uma outra vida, deve viver.

Me deixar falar faria com que você soubesse que eu não fujo na tristeza e nem na dor. Mas eu vou escapar de você toda vez que meu sangue ficar envenenado de cólera sem razão alguma. Pra poder ferver e borbulhar só, sem queimar ninguém. Solidão é uma escolha, e eu escolhi ser solitária. Me deixe aqui onde encontro paz. Mas quando estiver por perto me deixe falar. Me conta o que te incomoda quando conto o que sinto mas lembre que não é sobre você. 

Eu penso o tempo todo em como a vida da gente é curta, como a gente é um grãozinho de areia no universo, e não importa muito as coisas grandiosas que a gente faça nessa vida, não somos nada. Só importa o afeto. O amor. Só somos gigantescos praqueles que nos amam. Pra quem escolhe amar a gente qualquer brilho nos olhos desse grãozinho que nada significa é maior que o universo todo, mesmo que por um momento. Mas se eu não posso sequer viver na intensidade que habita em mim, como vai poder você vislumbrar esse brilho nos olhos? Ou melhor, quantas vezes meus olhos já brilharam diante de ti e você não viu?

Vou enrolando o fio no novelo de lã vermelha de volta pra fora do labirinto pra ver o que sobrou. Eu e meu medo, que ao chegar do lado de fora o laço que me guia de volta esteja em volta de uma pedra qualquer, afinal, essas foram minhas escolhas. Será possivel ignorar o quão touro existe no homem? É possivel existir sem ser monstro? Afinal quem não é ambas as coisas? Aquele que se joga no labirinto e mata o monstro, e monstro em si mesmo?


* Post escrito originalmente em 24 de julho de 2023 para agora fazer parte do BEDA 2026 do Entreblogs. E esse dia em que escrevi foi o dia em que abri mão de um grande amor antes que ele pudesse me destruir. 

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me deixa saber o que você pensa

2 Comentários

Henrique Bispo

Que baita texto, me deixou pensativo aqui... Me lembrou de dois trechos de música: "Então me conta o que incomoda, que eu te conto o que incomoda" - Apanhador Só, Não se Precipite "Quero te falar... Não, desculpa, quero te ouvir" - Carne Doce, Amiga

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Aline

Eu tinha comentado aqui, mas meu comentário nao foi. Só queria dizer que entendo o quanto deve ser difícil ter que viver como se não fosse diferente do que a maioria julga normal. Ter que mascarar quem é porque as pessoas não querem ver aquilo que não é igual a elas. No geral acho que muita gente não se importa mesmo em ouvir o outro. Ta sempre colocando suas questões na frente e o outro que lute. Mas pra quem é neurodivergente isso é muito pior. Eu espero que a vida esteja sendo mais gentil com você e que vc esteja cercada de pessoas dispostas a te ouvirem e aprenderem sobre você Um abraço apertado.

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