Feita de Silêncios
Outro dia na terapia comentei que normalmente eu não tenho nenhuma vontade exata de auto extermínio, mas que de tempos em tempos eu perco a vontade de falar. Eu já falei sobre isso em outros posts. Eu bati numa tecla recente sobre em que momentos me sinto dessa forma e aparentemente esta relacionado com uma TDPM não diagnosticada, não tratada e que foi encarada como exagero e ainda ajudou a fechar diagnósticos que eu simplesmente nunca tive.
A falta de conhecimento sobre o funcionamento do corpo das mulheres em pleno 2026 é no minimo revoltante.
TDPM significa Transtorno Disfórico Pré-Menstrual e é uma condição reconhecida como transtorno psiquiátrico, considerada uma forma grave da tensão pré-menstrual. Diferente da TPM comum, o TDPM provoca sintomas emocionais intensos, como irritabilidade extrema, tristeza profunda, ansiedade e mudanças bruscas de humor, que chegam a atrapalhar significativamente a vida pessoal, social e profissional de uma pessoa. Esses sintomas aparecem na fase que antecede a menstruação e desaparecem quase completamente assim que ela começa, seguindo um padrão que se repete a cada ciclo. E são nesses momentos em que eu: me demito, encerro meus casamentos e relacionamentos, perco amigos importantíssimos pra mim, desejo ser invisível mas com muita frequência desejo alguma condição concreta que me tire a fala. Eu deixo de falar, mas se preciso interagir, interajo. O desejo é pra que exista uma desculpa que me impeça fisicamente de falar. Não quero falar porque não acho que seria entendida.
Achei esse texto nos meus rascunhos e bati com as datas dos aplicativos de acompanhamento e tá lá a semana pré menstrual.
Essas ultimas semanas tem sido complicadas pra mim porque a grande ficha esta caindo. Percebi que podia estar morta, por uma situação que poderia ter me levado a sepse, apenas porque ninguém achou que eu valesse o cuidado. Essa percepção me magoou muito. Sentir algo que ninguém acredita que dói, aprender aos poucos a não pedir ajuda e nem se dar conta da situação não deveria ser normal em mundo nenhum, pra ninguém. Ainda não cheguei a conclusões, não sei o que pensar, mas esse era meu estado mental em 17 de agosto de 2023:
Me falta coragem para abrir a boca e permitir que meus sentimentos escapem sem controle. Tenho medo de começar a contar o sentir e ser afogadas por lágrimas que manteriam o deserto bem irrigado, com imensos lagos de água salgada onde meu corpo e o de qualquer outro poderiam boiar sem esforço.
Eu nunca peço ajuda, nem pras dores mais delicadas como terminar um grande amor no tempo certo, nem para que as feridas de um abuso sexual pudessem ser amenizadas em um abraço enquanto espero a cura. Não peço ajuda quando o desejo de morrer me ronda, e eu fico apavorada porque parece a coisa certa na hora errada.
Toda vez que eu caio de joelhos sozinha no mundo dos outros, e pensando que preciso de alguém pra me dar a mão, escuto a voz da minha mãe dizendo “ninguém gosta de gente com a boca mole, engole esse choro. Penso quantas vezes ela mesma repetiu isso pra si, e seguiu. Me sinto na obrigação ancestral de suportar. Chorar simboliza o horror, e de modo prático e lógico eu não gostaria de horrorizar, mas quando gritar foi preciso eu calei, e chorei diante de um horror ainda maior.
Calado no peito moram os sonhos que eu não aprendi a sonhar. E precisam ficar paralisados como eu, porque se eles não se realizam eu não tenho mais nada a perder.
Eu nunca pedi pra que alguém ficasse na minha vida, nunca pedi para alguém me amar. Mas entre longas cartas e diálogos regados a vinho bom, filosofando sobre a vida, a morte e o universo no meu mar de tolerância eu gostaria que fosse possível sair da minha boca “Fica”, que fosse natural pra mim dizer que eu amo, e preciso ser amada de volta. Dizer que preciso da conversa, da presença.Me ame pelo que eu sou, apesar do que eu sou e de como me pareço.
Sou feita de silêncios, porque sou feita de sentir, e tudo aquilo que me faz sentir me paralisa.
Olho pro meu corpo e não sei se meu coração é humano ou engrenagem de máquina. Fui feita pro trabalho, pro servir, e isso parece estar escrito na minha pele. Mas por dentro, ali onde as pessoas insistem em não ver, mesmo em silêncio, eu tenho pulso.
*Este post veio de um rascunho esquecido de 2023 e agora faz parte do BEDA 2026 do Entreblogs.
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