Pequeneza dos dias

Sou das que olha pra dentro da casa das pessoas enquanto estou dentro do ônibus nos meus devaneios durante qualquer deslocamento.

Sempre fui apaixonada por janelas abertas, cortinas semitransparentes, toda a sorte da indiscrição. As redes sociais me proporcionaram novos prazeres, bem distantes de comunicação, debates chatíssimos, a opinião de um universo todo – que no fim das contas acaba não importando pra ninguém. As fotos, os blogs, os sites de coleções me proporcionaram observar publicamente aquilo que é querido para os outros, o que é importante, o que acham bonito. Mais do que a olhada para dentro da casa da pessoa, que mostra que mesmo num prédio com unidades todas iguais, quando se entra todos depois de habitados são completamente diferentes, observar as pessoas tão de perto  mesmo que os cliques sejam milimetricamente arquitetados e a alegria forjada, bem ou mal, me faz pensar nos porquês e nos “como” aquela pessoa é quem é, faz o que faz e pra quem.

Gosto é da vida do outro, apesar de odiar fofoca. Ou melhor, eu gosto dos outros. Ainda não sei exatamente o que me atrai em outras vidas que não a minha. Desta também gosto, mas gosto é das coisas pequenas, comuns, do dia a dia e todo mundo tem suas pequenezas. Gosto de coisinhas mínimas, de plantas que nascem nos cantinhos de rachaduras, de xicrinhas herdadas que se perderam dos pires na caminhada do tempo. Gosto da forma como o sol entra pela janela da sala e forma o lugar preferido do gato, que também deve gostar de coisas pequenas pois aproveita cada segundo no canto iluminado pelo sol, mesma posição, todos os dias, embora o sol se estenda por tantos outros espaços, aquele é o dele, momento de glória, ritual dos dias.

Doideira a gente saber o que faz bem e em algum momento, em algum lugar a gente perde nossas pequenas coisas, engolidos pela rotina que as vezes a gente nem planejou, mas quando percebe esta ali girando em círculos de situações que tiram a cor da vida.

Tem um dias em que eu acabo me perdendo do meu lado de dentro, obcecada em conquistar uma vida normal. Vida normal compreendida aqui entre o medíocre trabalhar até morrer ou morrer de trabalhar simplesmente porque a sobrevivência é feita disso. Foi assim com meus pais, e com os pais dos meus pais e será ( ? ) assim com meu filho. Meu filho… não queria o normal e o medíocre pra ele, não quero janelas fechadas, vergonha, resignação. Não quero pra ele e não quero pra mim, esta é a verdade. Mas como ele vai saber que pode desviar do normal e ser feliz? Como eu consigo mostrar o possível se nem coragem de tentar, se nem o olhar para o novo, o diferente, o pequeno eu me permitir? Eu fico muito reflexiva sobre a maneira de construir e manter afetos, e ontem precisei iniciar uma conversa difícil sobre isso com ele.  Sobre as nossas ausências. Ele completamente engolido pela vida adulta, exatamente como eu fui. Eu não faço ideia das cores do mundo dele e me sinto impotente diante disso.

Como a gente mostra pra outro ser humano aquilo que pode ser, se a gente tira da nossa vida as possibilidades? Como a gente passa por cima do hábito ruim de matar o que faz a gente de fato feliz APESAR da dureza da vida, dos dias, das obrigações todas?

Tenho lido tanta gente, tenho escrito também, tão imersa nesse universo de escrita que ontem esqueci completamente do meu celular. E olha que eu fui a pessoa que dormia com ele embaixo do travesseiro com medo de perder alguma coisa, seja uma chamada, seja qualquer coisa de trabalho. Os meus dias tem ficado interessantes, eu só posso torcer pra que os dele estejam caminhando na direção da felicidade que ele deseja. As vezes a alegria da vida pra ele não está no pequeno ou no fácil. Talvez um dia a gente converse sobre isso. Talvez não.

Eu estou tão feliz fazendo minhas coisinhas, mas também estou tão na corda bamba financeira. Eu quero me manter sentindo o prazer em olhar pra dentro da casa das pessoas, das fotos, dos escritos, dos blogs, imaginar mundos, rir do comum de outras vidas. Não quero perder as pequenezas, mas me sinto responsável por ele achar normal construir futuro sem viver o presente.

* Este post faz parte do BEDA 2026 do Entreblogs

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