Pipas

É domingo no Jd. Monjolo. O céu esta absurdamente azul e é o cenário perfeito para colorir ele de pipas.

Em nenhum outro bairro em que morei, nas minhas 22 mudanças ao longo da vida adulta eu vi isso se repetir. São homens, entre adolecentes, adultos e idosos completamente imersos olhando pro céu. Não são poucas pessoas, chegam a atrapalhar o transito.

Eles correm em massa atras da pipa perdida por um desafortunado, que se correr bastante talvez consiga pegar de volta – mas eu duvido.

Passo na frente de dois botecos, o assunto não é politica ou mulher, é peixinho. Dá pra ouvir o assunto animado, as apostas até porque em cada um dos bares tem pelo menos 6 ou 7 homens , os “velhos do bar” com o pescoço virado pra cima, mãos sobre os olhos porque hoje no JD. Monjolo tem um sol pra cada um.

Na rua de cima por onde os moleques (e homens barbados) correm loucamente uma cena me chama muito a atenão, é o que parece ser um casal, ele , empinando pipa, ela sentada no meio fio beliscando alguma coisa no braço. Ela só esta ali, vazia, mas fazendo companhia pro menino que ela gosta, mesmo ele não sendo nada menino. Eu espero que ele entenda e veja isso como um gesto de amor. Ela não olhava pro céu, as vezes olhava pra ele.

Na frente da delegacia os policiais também olhando pra cima, um olho no peixe (literalmente) e outro no gato, gato esse que é o transito. No minuto em que um peixinho é cortado não tem farol, transito, grito, policia que pare a massa correndo atrás do tesouro perdio.

Entre a massa tem os mais espertos, os que chegam com as bikes, as motos e motinhos. Tem os que fazem entregas para o ifood e keeta com suas maletas e 3 ou 4 peixinhos na garupa.

Hoje na praça tem feira de exibição de carros antigos, por aqui ainda tem procissão na Igreja Matriz como se fosse o interior, mas uma igreja evangélica por metro quadrado, pipoqueiro na praça da igreja – com a melhor pipoca doce e a batata chips mais sequinha já comida – tem gente na sorveteria e o cara do sebo parece estar a uns 5 anos tentando colocar tudo nas prateleiras sem jamais conseguir. Aqui é a periferia da periferia, e não tem como romantizar um lugar cheio de dificuldades, mas alguns dias são mais bonitos do que os outros.

Eu gosto daqui. Não foi um plano que me trouxe de volta pra casa da minha infância, foi o mais profundo desespero, mas é aqui que eu quero manter minhas raizes. Primeiro porque é meu, segundo porque eu realmente me sinto em casa aqui.

Minha avó me chama pra pegar um pedaço de bolo, a vizinha coloca Só pra Contrariar, mesmo com o som dela é possivel ouvir o futebol de várzea da rua de baixo, parece a copa do mundo. Hoje não tem telha voando, ponto de ônibus lotado, criança chorando. A hamburgueria na frente de casa aproveita o movimento da rua e abre as portas. Passa o carro com os ovos direto da granja e o carro da pamonha com o puro creme do milho. É domingo no Jd. Monjolo, São Paulo.

* Este post faz parte do BEDA 2026 do Entreblogs

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3 Comentários

Adê

Esse suquinho de Brasil que eu amo tanto e sinto tanta falta! Carro do ovo, galera vendendo coisa, pagode e samba dos vizinhos, molecada na rua e a vó chamando pra um bolinho. Tava quase teletransportando junto pra comer um pedaço tbm! Hahah

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Barbara

a gente chega a sentir o sol na pela lendo esse post. que coisa preciosa! uma coisa que ainda consegui viver na minha infância mas não vejo mais acontecendo e infelizmente, sara provavelmente não viverá, é essa coisa da criançada brincando na rua, correndo atrás de pipa, andando de bicicleta, jogando bola e voltando pra casa com o dedão do pé esfolado. brincar debaixo de sol e chuva.

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Aline Codonho

Eu aprecio muito o carinho que você coloca nas pequenas coisas do dia. Podia ser só um domingo, mas se tornou um domingo bonito com pipas, vida e sol.

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