Por trás do blog

escrito por M.
Vida Acontecendo

Hoje completam duas semanas desde que eu encontrei o ENTREBLOGS, um projeto de postagem coletiva, mas que do meu ponto de vista acaba sendo mais do que isso. Cheguei no link porque estava fazendo pesquisa sobre organização pra mestrado, cai num blog, no selinho, nos links aleatórios e fui me encantando com a possibilidade de voltar a bloggar como no passado. Ir descobrindo que ainda existem pessoas no proposito de manter uma internet humana apesar das consciência da internet morta. Ainda existem pequenas comunidades nesse nosso The Walking Dead. Isso me motivou a reativar o blog, não só reativar mas repensar.

Eu escrevo desde 1996, blogs foram o principio daquilo que viria a se tornar minha carreira. Fui aprender a programar porque meu pai havia lido no Jornal, na Folha de São Paulo, uma matéria sobre pessoas em Nova York que estavam transformando seus diários de papel em diários virtuais. Ele sabia o quanto eu escrevia , me mostrou a matéria e foi o suficiente. Enchi o saco pra fazer um curso de DOS e na sequencia um de HTML. Eu salvei meu primeiro sitezinho num disquete de 7/8 flexível, criei meu blog e ao longo dos anos ele foi mudando. Eu fui mudando. A internet foi mudando.

Eu usava a internet literalmente como um diário, conheci pessoas, levei amizades virtuais para o mundo real, demorei anos para ver a programação como possibilidade de fonte de renda e só fui aceitar que esse era meu lance em 2013. No processo do tempo passando fui perdendo o prazer ou a coragem de me expor como me expunha nos meus “diários”, a performance tomou conta, eu blogava profissionalmente em outros espaços , no Blogueiras Negras, no True Love, blogs que se tornaram imensos. Eu já não pertencia mais ao meu bom e velho “Império dos Sentidos” , nome original do meu blog, mas que atraia uma śerie de problemas por conta do filme de 1976 de Nagisa Oshima, censurado no Brasil no inicio dos anos 80 por conta das cenas de sexo explicito. Eu achava o nome bonito e a ideia de levar o sentir ao extremo parecia encantadora, e eu achava que sentia demais (e sentia mesmo, só não sabia, mas é assunto pra outro post). “A paixão é maior que a razão” era a tagline, mal sabia eu que tentar controlar o que eu sentia me atropelaria da mesma forma que o controle do que eu escrevia. Parei de escrever porque parei de sentir. Eu escrevia porque existiam pessoas que liam, e os escritos causavam impactos pra além do meu controle, escrever era uma especie de obrigação. Um trabalho sem salário, que a gente sabe o nome que tem.

O Império dos Sentidos 1976

Encontrar o ENTREBLOGS, ler outras pessoas sendo elas, seja no cotidiano, na maternidade, nas suas descobertas, compartilhando seu conhecimento, sendo desafiadas nas postagens coletivas, enfim, sendo pessoas me devolveu a paixão que eu sentia pela escrita, pela internet, pelas possibilidades de conexão com o pensamento do outro. Faz 14 dias que eu mexo no meu blog, que eu derrubei uma versão pasteurizada dele, o estilo instagramavel das blogueiras de lifestyle, 14 dias testando coisas, pensando sistemas de arquivo, revendo minhas tags, pensando em organização, aceitando a experimentação crua, o retorno as raizes, celebrando aniversários de pessoas que acabo de conhecer, achando fantástica a tentativa de quem aprende coisas novas, a abertura para o dialogo, as conversas se entrelaçando, diferenças e identificações. Duas semanas pensando sobre o que eu gostaria de escrever, e será que vou querer escrever 🙂 ?

Eu nunca tive um processo de escrita, eu acho que escrevo no impulso, no susto. As coisas saem de mim por escrito, o bom e o ruim. De uma forma pouco linear. Uma vez num curso de escrita (e eu já fiz muitos, mas confesso nunca entendi o objetivo, a coisa prática, mas gosto dos temas, de ler/ouvir outras pessoas), a professora disse ” você vai ser escritora a partir do momento em que você desejar escrever todos os dias, vai ser escritora quando escrever todos os dias, e não quando alguém disser que você é boa o suficiente ou tiver livros publicados. O escritor escreve”, e isso me pegou muito porque quando criança e adolescente tudo que eu queria era ser escritora, por isso os diários. Meu mundo sempre foi o mundo dos livros, minha diversão era a biblioteca e eu amava palavras. Mas minha vida não permitiu que a escrita se tornasse o ganha pão, acho que dificilmente é o ganha pão de alguém , e eu também nem tentei, eu tenho o costume de matar qualquer possibilidade de sonho antes que ele se torne grande demais e ao não se concretizar me mate aos poucos. Um padrão terrível de manter os pés cimentados numa realidade mais cinza do que precisaria ser. Eu não sonho, mas queria ser escritora, na impossibilidade de escrever na minha língua aprendi outras linguagens e sou o que sou, programadora. Eu achava que todo escritor tinha um processo, uma motivação, um ritual, e eu nunca tive nada disso. Nos blogs grandes ainda havia um motivo para escrita, mas a escrita pessoal ou terapêutica foi morrendo em mim, sendo deixada de lado, mas escrever o que eu sinto talvez seja o meu processo. A palavra vem, e sai de mim. É processo. Não tem um lugar certo, um espaço meu para isso.

“Uma mulher deve ter dinheiro e um quarto próprio se quiser escrever ficção.” –  Virginia Woolf, Um teto todo seu (1929)

Estou vivendo sozinha pela primeira vez na vida, eu morei com meus pais, com companheiros, companheiras, sempre com meu filho, e agora meu filho mudou e esta no mundo, eu estou e pretendo continuar solteira, minha família esta vivendo a vida em suas respectivas casinhas. Eu não tenho dinheiro, estou desempregada inclusive, mas agora eu tenho um teto todo meu, talvez a escrita passe a ser outra.

Eu tenho feito planos pro blog, de deixar a palavra sair. De voltar a fazer da escrita um ritual. Eu escrevo a mão, menos do que gostaria, e ano após ano queimo meus escritos. cadernos, cartas, notas. Queimo. Eu nem sei dizer porque me apago do mundo desta forma. Fiz o mesmo no blog a um tempo atras. Apaguei posts, dei um nome enigmático para o blog, passei a não assinar meu nome , escrevia em inglês, um idioma que eu sequer sei. Tudo porque queria tentar existir completamente sem ser julgada por isso, sem que as pessoas que eu já conheci na vida conseguissem associar o blog a mim. Era eu me apagando do mundo de novo, num processo em que o outro tem um impacto brutal sobre quem eu sou ou o que posso ser. Estar num grupo de blogueiros e ver como se permitem me deu coragem para retomar o nome do meu Blog, não para império dos sentidos ( porque não quero mais lidar com o fetiche alheio) mas para Mormaço, que é a sensação que tenho quando escrevo, quente, abafado, úmido, sem chuva, as vezes sufoca, as vezes é bom. Dá pra pegar uma praia.

Nesse universo de internet eu colecionei muitos links, algumas coisas saíram do ar infelizmente, outras ainda estão por ai. Meu Blogroll ainda existe e cresce, e um dos blogs que me fazem manter essa vontade de manter o meu é o ervilha cor de rosa da Rosa Pomar. Eu leio desde o dia 1, vi as crianças crescerem, as mudanças, os processos criativos. Gostos de diários, não tem jeito, mesmo nos livros que leio. Também gosto muito dos blogs de culinária, gostava muito do blog da falecida Julie Powell, de Julie e Julia, que inclusive me inspirou a anos atras querer fazer um desafio igual, que nunca tirei do papel, mas a ideia nunca morreu. Eu fico triste que alguns ótimos blogs como A cozinha coletiva , tenham virado perfis de instagram, alguma coisa morre quando isso acontece, mas as vezes volto pra ver imagens, pegar receitas e ler o passado. Inclusive parece que só conheço o passado desse mundo dos blogs pra poder realmente recomendar alguns, acho que estou mais pra aceitar recomendações.

Falei que gosto de diários, coleciono literatura que tem esse formato, mas gosto de quem escreve os “quase diários”. Li os livros da Tamara Klink, o Mil Milhas e o Nós, que me surpreenderam. Me apaixonei recentemente por um livro chamado Migrações da Charlotte McConaghy que tem esse ritmo de diário, assim como a escrita de Joan Didion e seus registros de mundo e da vida. Para John, com as notas que ela escreveu para o marido enquanto fazia terapia, acaba também virando um diário.

Viver é muito bonito, nem sempre é fácil – na maioria das vezes não é nada fácil – e acho que a gente vai aprendendo com o tempo a resinificar muita coisa. Eu estou me relendo, e coisas muito difíceis aconteceram, a ponto de me mudar muito como pessoa, mas a Maria Rita que eu fui (e esse é meu nome afinal e o C. é de Casagrande, meu sobrenome), e todas as suas versões, ainda estão aqui, e sou formada pelos momentos bons e pelos ruins. E se não fosse o blog e o registro dos dias eu sequer lembraria de certas coisas, varias que viraram cicatrizes, e eu também vejo belezas nelas, no “aqui doeu, aqui sarou” que elas contam.

Registrar a vida. Acho que se eu tivesse que dar uma sugestão pra alguém seria registre sua vida, no papel, na imagem, desenhe, grave, deixe a sua marca no mundo mesmo que só você saiba que está ali. Estamos no mundo pra isso, pra deixar nossa marca nele, nas pessoas. Marcar e sermos marcados e impactados pelos outros. Do jeito que a gente puder, do jeito que sair. Sejamos nós a “estranha civilização” no futuro. Eu farei meus registros, não lineares, em fluxo de pensamento, no susto, na dor, na alegria, do jeito que dá e do jeito que eu sei, mesmo que não faça sentido.

“Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização”

* Este post faz parte de uma TAG do projeto Entreblogs 

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2 Comentários

Aline

Parabéns pela coragem. A gente fala muito sobre se expor na internet, mas isso é muito corajoso. Gostei muito de conhecer sua história com a escrita e espero que você continue escrevendo porque além de ser importante pra você, foi um prazer esbarrar com sua escrita nesse mundão da Internet. Um abraço.

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Barbara Moretti

fico muito feliz em saber que de alguma forma o projeto te tocou a ponto de te fazer resgatar essa parte sua. que continuemos sendo escritoras da nossa vida :)

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