A desordem que fica

escrito por M.
Vida Acontecendo

Hoje foi um dia que me consumiu, a luz acabou logo cedo, eu tinha planos. Não daria para trabalhar, mas daria para responder cartas que eu venho adiando por não conseguir parar pra fazer isso com presença, planejamento, ajuste alimentar, faxina. Mas me vi por boa parte do dia girando em volta de mim mesma depois de uma microagressão intencional.

Algumas pessoas possuem tantos privilégios e uma certeza tão garantida de que nada pode lhe atingir que se dá liberdades de fazer do mundo seu próprio laboratório. Ignora os efeitos de suas ações, e faz isso porque normalmente elas não tem nenhuma consequência. Quem toma o dano ainda precisa lidar com aquilo que lhe foi provocado.

Uma das coisas que mais tem me feito perder o sono e a paz há alguns anos nesse campo político é o fato de que a humanidade está morta. Nos desensibilizamos. Não nos impacta a violência, o genocídio, a morte, a fome. Tudo foi naturalizado e nos mantém hipnotizados diante das telas e diante da vida. E se estamos passivos diante da barbárie, como é possivel proteger quem ainda sonha? Quem pensa na vida dele e dos outros, quem se emociona, quem acredita, que segue romântico. Aqueles que ainda enxergam beleza, aqueles que não estão mortos?

Gaza hoje e Gaza como era. E aconteceu diante dos nossos olhos.

Meu filho é um desses emocionados, muito politizado como toda a minha família, mas talvez um dos poucos que ainda acredita que o mundo pode ser um lugar melhor. Desses que não se importa em morrer desde que seja defendendo uma causa justa, humanitária. Desses revolucionários. E que orgulho eu tenho do meu menino, mas na mesma proporção que me orgulho e incentivo, me apavora a ideia de que ele esbarre em um desses mortos-vivos a caminhar por nós. Alguém que não vai ver ele nem como gente, tampouco como bicho. E meu menino será número.

Eu nunca senti tanto medo na vida até ser mãe. Encerrei um casamento quando consegui imaginar que meu filho nasceu e cresceria em uma cidade que chama quem vem de outros estados e “forasteiros”, como se fosse o velho oeste. Que ele sofreria um nível de racismo recreativo que não permitiria que ele fosse a pessoa que ele veio pra ser no mundo. Eu precisava fugir desse Western com meu bebê, e não havia amor, casa, bens que me fizesse ficar parada. Junto com um bebê nasce uma mãe e o medo.

Existe em nós, todos nós, duas “vozes” que nos puxam em direções opostas. Uma é a vontade de viver: criar, amar, se conectar com os outros, construir coisas, buscar prazer. A outra é a pulsão de morte: uma tendência a querer parar, descansar de tudo, voltar ao silêncio e à calma total, como se a mente quisesse “desligar” de vez as tensões e preocupações.

Freud percebeu isso porque notou certos comportamentos que pareciam ir contra o próprio bem-estar. Por exemplo: pessoas que repetem os mesmos erros ou relações que machucam, mesmo sabendo que fazem mal, gente passou por uma coisa terrível e revive aquilo em pesadelos, de novo e de novo, momentos em que a gente se sabota ou sente vontade de destruir algo, ou de explodir de raiva. Para ele, isso mostrava que nem tudo na mente busca prazer ou conforto. Existe também uma força que empurra para a repetição, a destruição e o fim. O que não quer dizer que a pessoa quer morrer de verdade, é mais uma ideia sobre forças que existem dentro de todo mundo, e normalmente as duas trabalham juntas, em equilíbrio. Energia agressiva também pode ser usada de forma boa, como competir, se defender ou ter coragem de mudar alguma coisa.

Mas meu ponto é que estamos vivendo a pulsão de morte pode operar em escala coletiva, inclusive nas escolhas políticas em que a frustração com a própria vida vira necessidade de aniquilar um inimigo inventado sem perceber que o inimigo é o espelho. Como se coletivamente a perda não fosse coletiva. E isso, essa pulsão de morte me assusta muito mais do que qualquer coisa que eu possa vir a perder inclusive politicamente, a vida passa a valer pouco quando o inimigo é a família, o amigo, o colega de trabalho, os filhos, as pessoas que acolhem. Minha apreensão é por saber exatamente contra quem essa vontade de aniquilar estoura com autorização.

Queria eu a liberdade de devolver pro mundo aquilo que eu carrego com a mesma violência que recebo.

Hoje alguém insignificante na minha vida conseguiu roubar um momento importante, estragou meu dia, me fez chorar. Não porque havia alguma coerência nas palavras, mas pela vontade genuína de causar incômodo em um espaço que sempre foi incrivelmente acolhedor mesmo diante de todas as intolerâncias que a pessoa já havia apresentado. Me fez chorar de raiva, mas eu tive pena, e esse pra mim é o pior sentimento do mundo porque ele é o que marca alguém como um fracassado aos olhos do mundo. Não gosto do sentimento, parece uma mosca presa num vidro. A pequeneza de quem queria voar, mas jamais vai sair do lugar e vai se debater nas paredes de vidro até a morte solitária. E é muito triste. Alguém que mesmo diante da dor dos outros faz chacota, tenta simular inteligência diante daqueles que ele acredita serem incultos. Enfim, hoje eu me desorganizei, mas felizmente, diante da força dos demais fiz o que sei fazer de melhor, que é levantar, e lutar, mesmo com a desordem que ficou.

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