Setembro

escrito por M.
Vida Acontecendo

Acho que nunca tive um mês de setembro tão interessante. Certeza que não nos últimos 15 anos. Setembro sempre foi muito importante pra mim porque é meu aniversário e aniversários são importantes pra mim. Eu gosto do meu e gosto do dos outros, é o dia que a pessoa chegou no mundo, o dia em que todo mundo começou uma coisa nova, um desafio imenso. Chegou um novo humano inteirinho no planeta. Ok, considerando as coisas que a gente faz no planeta, talvez fosse melhor não chegar. Mas chegamos, aqui estamos e é o “dia mágico” pra cada um de nós. Esse é um conceito particular meu, eu sei, mas não consigo desapegar.

Eu entendo que não goste da data, quem não veja a menor importância nisso, entendo quem veja só como mais um dia num calendário inventado, entendo e respeito. Entendo também quem gosta de festa, quem espera coisas das pessoas, quem usa a data pra ser feliz. Enfim, entendo visões de mundo. Mas não entendo muito bem quando alguém descobre que algo é importante para o outro e conscientemente opta por estragar o dia ou impor sua visão de mundo sobre aquele ser humano como prova de desimportância, sempre vou achar estranho medir o mundo de outra pessoa pelos NOSSOS olhos.

Acontece que ninguém se importa mesmo com isso na vida adulta, e no meu caso houve todo um esforço pra que a minha “coisa legal” se tornasse algo a ser ridicularizado, menor, um capricho antes que eu fizesse 15 anos. Hoje eu acho que tudo aquilo que foi minimizado e ganhou ares de “ridículo” na minha casa teve como medida o quanto ia custar, então se algo tivesse qualquer custo precisava ser massacrado. Eu acho que eu era uma criança sonhadora, e essas asas, mesmo que pequenas, precisavam ser cortadas o quanto antes ou então eu sofreria. Eu fui me tornando vazia das minhas próprias coisas. Não quis ir nas minhas formaturas, estava vestida de morte na minha minifesta de 15 anos feita no porão de casa pra não parecer comemoração, não comemorei mais nada. Não fui valiosa o suficiente pra alguém pra merecer uma festa de casamento, com pedido, vestido e música (um churrasco e o quintal de alguém eram suficientes). Não teve nascimento de filho, graduação, pós-graduação que valessem um parabéns. Chega uma hora que a gente precisa entender que as coisas são como são e tentar fazer o melhor com as coisas que nunca vão acontecer. Eu dava festas em que os convidados me faziam chorar e acabavam com a minha alegria por meses. Marcava jantares que ninguém queria ir pra não gastar. Quando me chamavam pra fazer algo, era tão em cima da hora que em 3 anos seguidos demos com a cara na porta, já que, apesar do aniversário cair no mesmo dia por mais de 40 anos, uma reserva não parecia inteligente, já que as pessoas eram pegas de surpresa 🙂

Ano passado eu cheguei a apelar, e foi terrível. Pedi que em setembro as pessoas me dessem gentileza de presente de aniversário. Foi terrível, parece que eu ativei o desgosto, o ódio e a exposição. Foi muito triste. As poucas pessoas que viram ali uma oportunidade de “brilhar” fizeram pra aparecer nas redes sociais. Não foi um bom ano definitivamente. Houve quem se antecipasse pra garantir o “nenhuma expectativa” e já notificou: “Não espere nada de mim, eu não vou dar parabéns porque não gosto de aniversários”. Entendo, mas EU gosto, e meu dia deveria ser sobre mim, no SEU aniversário você pode evitar ser parabenizado. Bom, rendeu. Tanto que eu desisti e decidi não comemorar mais.

Qual não foi minha surpresa nesse ano aqui, 2026, um dos anos mais difíceis pra mim, o ano em que eu decidi não me mexer e esquecer a data, foi o ano em que eu tive o melhor setembro de todos.

Muito disso graças ao M., que também faz aniversário em setembro e também sabe como as coisas acontecem na minha vida. Eu nunca tinha vivido as surpresas de aniversário e ele providenciou várias. De roda de samba a tatuagem. O M. me estabiliza, é a família que escolhi. Ele ainda juntou W., JD e me apresentou J., que tem a mesma energia que a nossa, pra completar aquilo que já seria bom.

Eu também fui pra Bienal do Livro, algo que eu queria muito, embora não tivesse planos de comprar livros. Gosto de ver os lançamentos, o movimento das pessoas, os interesses. Minha amiga ML me levou, acho que ela nem considerou que era um presente, porque eu acho que não falei pra ela a data exata em que nasci, o convite viria mesmo sem aniversário, mas pra mim foi presente. Isso e o pato literário que a namorada dela, G., deu pra gente 🙂

Em setembro eu ainda ministrei uma das aulas mais legais que já fiz, gravei vídeos e conheci pessoas, ganhei um livro no meio do processo de produzir conteúdo, estive entre amigos queridos, F. e T., e pude estar mais próxima de pessoas que só conhecia pela internet. Montei um novo servidor com o conteúdo mais legal de todos. Recebi um presente da B. que salvou o dia. Comecei o curso de oceanografia. E nesse processo de estar e viver meus amigos percebi como eu os admiro.

Há um tempo atrás eu entrei numa mini crise porque percebi que não admirava ninguém no mundo, não tinha nem referências de admiração com relação a trabalho. Mas acredito que era minha maneira de ver o mundo e com quem eu dividia meus pensamentos que acabava me arrastando pra um buraco onde ficávamos juntinhos ruminando desilusão. Deve fazer menos de 6 meses isso tudo e eu tenho pessoas que admiro profissionalmente, mas eu tenho admiração profunda pelas pessoas que estão na minha vida hoje. Admiro o trabalho, a ética, o esforço, as formas de amar. Meus amigos estão construindo vidas bonitas, coisas bonitas, outros humanos muito bonitos.

No dia exato do meu aniversário também foi dia de filho. Fazia tempo que a gente não se encontrava. Fomos no Museu de Oceanografia, lugar que eu escolhi pra passar meu aniversário. Também escolho o restaurante do almoço e da janta, o lugar do jantar acho que foi a chuva que escolheu por nós dois, mas foi um dia maravilhoso mesmo embaixo d’água.

No finzinho da noite bem perto da hora do aniversario que é as 23h55 ( libra, ascendente em gêmeos, lua em peixes, venus em leão, marte em escorpião – arcano pessoal o imperador ) recebi uma mensagem. Talvez uma das mais bonitas que eu já tenha recebido. Eu me emocionei, chorei, sorri. Eu não esperava de forma alguma e veio de M. mas não só. Veio desse universo de escrever, de blogar, de conhecer gente. Foi um convite pra quem sabe baixar um pouco da guarda. E nisso de lera mensagem, o post e refletir, tirei dali o que eu quero fazer desse meu novo ano.

Ainda em setembro me peguei olhando pra uma pessoa de maneira diferente (será que baixei a guarda demais?). Não somos pessoas próximas, também não estamos distantes, mas dei uma devaneada e isso não acontecia há muito tempo. Ainda não sei exatamente o que é, mas está por aqui.

Eu vivi muito setembro. Existe muita vida em mim e no mundo, e eu vou seguir celebrando o que eu acredito que deve ser celebrado, mesmo que seja sozinha, embora eu saiba que não estarei só. E mesmo com outras coisas tantas acontecendo, que espero poder elaborar melhor e escrever depois, só posso concluir que a vida está sendo muito generosa comigo. Serão lindos meus 46.

poeira pura

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2 Comentários

Felipe Brasil

Parabéns aí, comemore, o mês parece ter sido ótimo.

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xis

que gostoso saber que você teve um bom aniversário, que as pessoas foram gentis e que o dia te agraciou com momentos agradáveis! eu sou da mesma opinião que você, que aniversários são um dia pra gente se sentir especial e acho que as pessoas que se dedicaram a fazer você se sentir particularmente desquerida nessa data são só... escrotas. não é difícil fazer pequenas gentilezas por quem a gente gosta e ama. dito isso, também fui à bienal, a convite de uma amiga, e fui só pra não ficar sem fazer nada no dia. aproveitei e comprei quadrinhos dos artistas que eu conhecia lá, haha. feliz niver atrasado, querida! espero que você seja muito feliz com o curso, com a vida, espero que cada vez mais pessoas amáveis e que se importam te cerquem, e que o conforto e a felicidade encontrem o caminho até você mesmo quando ele for estreito e improvável. um beijo!

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