Esboço
Eu ando na rua olhando pro chão. Na cabeça sempre me passa “olha pra frente”. Nisso de me obrigar a olhar pra frente eu tento prestar atenção no máximo de coisas possíveis. Em quem passa, em quem esta trabalhando, se a cor da casa combina com a cor do portão, se os cachorros tem agua, do que as crianças estão brincando, se será mesmo possível comer as framboesas do pé no meio de tanta fuligem, será que tem fuligem mesmo?, será que é uma arvorezinha fraca, se fosse boa teriam passarinhos.
Eu não olho pro chão o tempo todo e nem em todo lugar mas eu percebi ontem que faço isso onde estou muito confortável de estar. No clássico caminho pra biblioteca. La fui eu de novo tentar cumprir o prazo de entrega e pegar mais alguma coisa apesar das estantes cheias de coisas pra ler aqui em casa mesmo. Mas livro de casa são a reserva de futuro. Cheguei lá em cima da hora e não tive muito tempo pra circular entre prateleiras e escolher aleatoriedades.
Nesse ir e vir eu penso em tantas coisas que eu queria escrever, na verdade penso em escrever a quantidade de historias, situações e conversas que vão passando pela minha mente e que me acompanham o tempo todo. Talvez eu precise fazer disso um habito, mas ai estaria sempre parando pra anotar alguma coisa e seria mais estranha do que já costumo ser. Mas as vezes parecem ideias boas demais pra se perder.
Eu estou numa semana difícil, eu e meus demônios. O eterno demônio da falta de dinheiro que me impede de fazer coisas simples, mas desse eu estou tão farta que já nem quero reclamar mais dele. E o que tem se mostrado mais terrível e peçonhento de todos, o demônio da dor.
Eu tenho Hipertensão Intracraniana Idiopática, tenho dor o tempo todo, mas em alguns dias a dor beira o enlouquecedor. Ela afeta principalmente meu humor e minha tomada de decisões, mas nunca tinha olhado pra isso com a devida atenção. Eu acabo me tratando como os outros me tratam, e mesmo com 3 internações e 1 cirurgia minha dor não foi tratada como grave por nenhum membro da minha família. Eu mesma não tinha sequer noção do quanto a coisa é séria até encontrar um grupo de pessoas com a mesma doença e conseguir ser absurdamente empática com elas. Eu poderia estender essa empatia toda pra mim mesma.
Me falta informação sobre o assunto HII. Eu sai da hospitalização ciente que era grave, entendendo que um dia isso vai me matar, mas feliz porque provavelmente vou dormir e não acordar e provavelmente vai ser um alivio porque não terá dor. Sai disso aceitando perder a visão pouco a pouco, e desde então tenho tentado guardar o máximo de memoria visual possível. Passei a prestar atenção a cheiros, a sons, a sensações. Quero aprender braile e planejo ter um cão guia. Sou ansiosa e quero estar preparada, não quero estar triste nessa etapa da minha jornada, mas eu não faço ideia de por onde começar.

Eu não sabia que algumas pessoas querem considerar como doença grave, não sabia que estava sendo debatida como uma deficiência. Não sabia que existem cirurgias pra impedir a cegueira e a dor. Não sabia que a medicação que tenho em casa e me orientaram a tomar era pra ser tomada pra sempre. Eu não sei de muitas coisas e esse não saber e não ter apoio nenhum – porque eu sou lida como a pessoa que apoia e não a que precisa de apoio , aquela que resolve e não a que precisa de muita ajuda – tem me prejudicado demais.
Não estou escrevendo sobre isso amargurada, é um fato da vida, eu estou em paz com isso, e só escrevo sobre pra contar que essa semana tive dor todos os dias e fazia tempo que isso não acontecia. Pensei sobre o que mudou na minha situação e a única mudança foi a nova graduação e as demandas de bootcamp. Eu me estressei como se estivesse vivendo uma rotina de trabalho.
Quando fui internada, em todas as 3 vezes, médicos diferentes me alertaram que meu ritmo de vida, de trabalho e como eu via o mundo agravavam demais minha situação. Que controlar meu estresse tornaria minha melhora 50% mais possível. E eu acreditei nos médicos? Claro que não. Na hora só pensei “que papo de coach”. E agora estou aqui aprendendo da pior maneira possível.
Só hoje eu fui pensar friamente sobre isso tudo e em como minha vida mudou e meio que gira em torno dessa coisas de estar doente e eu nem percebi. Eu sempre fui gorda, e eu gostava muito de quem eu era, não posso mentir. Amava meu corpo, mas não gostava muito da gordofobia que sofria, obviamente. Mas era o corpo que eu conhecia, que eu achava lindo. Do fatídico dia do diagnostico até aqui perdi 54 kg, me vi desaparecendo e passei a não me reconhecer mais no espelho. Lidei como um mal necessário. Me pedira pra perder 12 kgs na verdade, pra diminuir a pressão cerebral e funcionou por um tempo afinal. Mas não tem sido o suficiente, acho que preciso perder mais 13 kgs e isso mexe com a minha cabeça.
Não estar confortável no meu corpo novo faz com que eu não queira me relacionar com pessoas, não quero que esse corpo seja visto ou tocado de forma nenhuma. Essa parte eu já tinha entendido, mas ainda não tinha ligado isso a HII.
Ainda sobre relacionamentos, percebi que estou evitando demais estar em um porque não quero cuidar de mais ninguém. Eu sou uma cuidadora desde os 7 anos de idade. Fui uma criança que não dava trabalho então não precisei de cuidados. Fui criada, mas não fui cuidada, amada, é um lugar estranho, não é uma dor, acho que muita gente cresce assim. Mas eu não quero cuidar. Queria viver a experiência do cuidado.
Num dos meus últimos relacionamentos ouvi de C. ” eu quero alguém que cuide de mim” e ali pra mim já estava claro que eu jamais seria essa pessoa e ainda fiquei ofendida porque me pareceu um pedido. Eu não quero cuidar de ninguém. Eu não acho que alguém tenha o direito de me conhecer, saber da minha história e me pedir pra estar numa relação como cuidadora. Eu deveria ter dito isso ao invés de ter tentado ser agradável e dizer quase um ” não é você, sou eu”.
Mas a questão é que isso tem impactado meus afetos. As pessoas que se interessam por mim parecem bichinhos abandonados, problemáticos, delicados, sensíveis. Eu não me sinto nem cuidada e nem protegida. E eu acho que preciso disso. Nesse aspecto mulheres parecem ainda mais frágeis que homens nesse momento, e homens seguem sendo uma grande ameaça e perigo emocional. Não me espanta continuar confortavelmente sozinha, mas de alguma maneira me parece um erro.
Eu queria ser abraçada por alguém com quem eu tenho um relacionamento e ouvir que a pessoa vai estar ali quando eu só enxergar borrões. Que esta tudo bem eu ter pego novos livros pra ler e ter descoberto que não é mais possível acompanhar livros de bolso, eu já não consigo mais ler. Não quero isso das minhas amizades. Eu amo minhas amizades e sei que elas fariam isso por mim, mas também sei que elas precisariam cuidar das próprias vidas e que existem outras prioridades. Eu gostaria de ser prioridade, queria alguém pensando comigo “como a vida vai ser quando você estiver cega”. Será que isso vai me mudar como pessoa? Será que vou gostar de coisas diferentes? Será que vou ter uma “voz de leitor de e-reader” preferida? Será que algum dos meus sentido ficará mais aguçado? Alguém pra falar e pensar essas coisas sem ninguém ficar triste, ou melancólico porque eu não estou.
No fundo eu acho que sempre pensei sobre a possibilidade desses acontecimento, porque nada na vida é garantido e é por isso que a gente não pode ser escroto e egoísta. Nada nos impede, do dia pra noite, de nos tornarmos estrangeiros na terra do outro, sem teto, refugiados, que nossa crença politica ou religiosa seja proibida ou condenada, que a gente fique doente ou tenha uma deficiência. Um dia você pode estar bem, e no outro não andar, ver, ouvir ou falar. Tudo é efêmero, não só a vida.
Acho que a maior complicação de falar sobre assuntos sensíveis é que as pessoas ficam desconfortáveis demais, ou acham que é algo que esta sendo dito pra que elas tenham que resolver. Eu não quero ser “algo a ser resolvido” e nem estou triste. Mas estou com dor, e com uma fila imensa de pensamentos sem ter como dar vazão a eles.
Eu peguei Esboço da Rachel Cusk na biblioteca, estou muito curiosa pra ler. Hoje eu queria alguém lendo pra mim, alguém pra ouvir meus planos e escolher o melhor cachorrinho.
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