Despencar do Céu
Ontem pedi ajuda no terreiro. Pedi comida. Ganhei uma cista básica felizmente, mas ela veio incompleta, eu quase chorei.
Não sei se fico triste pela falta de possibilidades, por não ter perspectiva, por não tem quem se importe ou simplesmente porque parece que pro mundo isso não esta acontecendo.
A vida vai seguindo, as pessoas seguem esperando minha presença, contando comigo, me pedindo pra fazer coisas, e certos de que eu estou ótima. Eu sempre estou otima. Eu sempre me viro – mas dessa vez não vou conseguir, é tarde demais.
Acho interessante a narrativa das pessoas em volta de mim de que eu nao vou porque não quero, não faço porque não gosto, que eu escolho coisas na vida. Isso sem me fazer uma pergunta.
Imagino que tenha total relação com a imagem da mulher forte. Mas eu sou “a mulher forte” desde os 7 anos, e eu estou tão cansada desse abandono completo.
Esse momento é mais triste ainda porque eu ganhei uma bolsa para estudar algo que quis desde os 16 anos. Mas daqui a pouco não vou ter nem luz nem internet pra continuar. Desde que fui demitida ja renegociei tudo que dava pra negociar, cortei imediatamente tudo aquilo que não era o básico do básico e ainda assim ja fiquei sem gas e sem agua.
E eu não sei como isso deveria parecer. Se eu deveria me arrastar e chorar, se deveria sair por aí lembrando as pessoas de que eu não tenho família. Que sim eles tem suas casas, que meu filho foi morar com o pai porque não suportou meses de extrema pobreza e levou com ele qualquer possibilidade de sobrevivência. Não me sinto confortável em falar sobre dinheiro, tão pouco pra falar sobre miséria.
Minha terapeuta – que esta me atendendo de graça e ainda não sei como me sinto com isso. Eu não queria seguir, ela decidiu não abandonar, e sou grata por isso, mas ao mesmo tempo anoto com traços a quantidade de sessões que “devo”, tal qual uma presidiaria – já me explicou sobre negligencia, sobre porque eu estou no lugar em que estou e os porquês, e isso me traz paz, ao passo que saber não me ajuda a resolver.
Eu realmente não sei como as pessoas me veem na vida, e eu estive nesse perrengue a vida toda. Eu construi sim coisas que foram tomadas, criei um filho garantindo que nada faltasse. Mas nunca porque tive salário alto, carteira assinada, benefícios. Sempre foi acumulando atividades, funções, trabalhando até meu cérebro sangrar e eu ficar parcialmente cega. E agora que tudo é mais difícil e extremamente precário é como se eu também tivesse ganho o manto da invisibilidade.
Poucas são as pessoas pra quem eu chego a contar que as coisas estão terríveis desde Outubro de 2023. E quando eu acho que ouviram a “história triste” e assimilaram a situação acabam me perguntando quando a gente vai sair junto, porque elas “tem interesse” ou na sequencia me dizem que eu preciso tentar viver, fazer do limão limonada, sair do celibato. Obviamente não sairei jamais com nenhuma dessas pessoas porque elas além de conseguir fazer uma analise de conjuntura, já estão convivendo com uma Maria Rita completamente imaginaria e isso nunca funcionaria pra mim (de novo, e de novo, e de novo). Eu poderia ama-l(os/as) , ensinar a andar sem ter os pés no chão, mas não vou.
Olha
Será que é uma estrela
Será que é mentira
Será que é comédia
Será que é divina
A vida da atriz
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se o arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida
São 11:27, eu preciso chegar em um lugar que seria importante estar, ser vista e fazer networking. Ganhei um convite. Eu estou vendo amigas queridas me chamando pra estar, inventando projetos , falando meu nome em salas cheias. Mas não estou conseguindo participar. Preciso chegar até as 14:00 e não tenho dinheiro suficiente pra entrar no primeiro ônibus. Hoje tenho aquela nota de 20 reais, a do apego. Tudo que eu tenho nessa vida, e vou ver ela virar 5 reais, se eu der sorte do cobrador ter troco. Eu vou até lá apoiar minha amiga que esta insegura, vou participar, acenar, sorrir.
Me sinto uma melodia feliz com uma letra triste.
(Come on, Harry, we wanna say goodnight to you)
✴︎ Este desabafo terrivel faz parte do BEDA 2026 do Entreblogs
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