Mensagem numa garrafa

Disclaimer: Isso não é apenas sobre o mar.

Sabe aquela frase clichê “sabemos mais sobre a Lua do que sobre o fundo dos nossos oceanos” que parece abertura de programa do Discovery Channel? Pois é, mas a questão é que o clichê só existe neste caso porque é verdade. Mais de 80% do fundo oceânico permanece inexplorado. Ele jamais foi visto, não é só não mapeado, ele nunca foi observado diretamente. E apesar da gente nadar, flutuar, viajar, se alimentar , abastecer por e de oceanos e ele ter o tamanho que tem, ele ainda é algo vivo e não compreendido completamente. É como se vivêssemos sobre um planeta inteiro, parcialmente desconhecido.

Desde os anos 60, missões tripuladas foram até a superfície lunar, robôs exploram Marte em tempo real, telescópios captam imagens de galáxias a bilhões de anos-luz, bilionários planejam sua vida além das estrelas. Enquanto isso, a Fossa das Marianas, o ponto mais profundo dos oceanos, a cerca de 11.000 metros, foi visitada por pouquíssimos humanos. Em 2020, menos de 25% dos fundos oceânicos estavam mapeados com resolução adequada. Tudo bem que também teve bilionário explodindo em submarino, mas sabe como é

Existem vários motivos pra não chegarmos mais longe na exploração oceânica, a pressão em grandes profundidades é extrema, a luz solar não penetra, o sinal de GPS não chega, a operação de equipamentos é caríssima. Mas também existe ai uma questão política: o mar não é um país, não pertence a ninguém, não oferece retorno midiático imediato como uma bandeira cravada na superfície lunar.

A atmosfera terrestre permite o envio frequente de satélites e sondas para o espaço, enquanto o investimento em veículos submersíveis autônomos e robóticos, que seriam essenciais para o mapeamento do fundo do mar acaba sendo bem limitado. A complexidade de operar a grandes profundidades impõe desafios que vão desde a construção de materiais resistentes à pressão, até a comunicação com a superfície, onde a transmissão de dados se torna um verdadeiro quebra-cabeça científico.

Eu nunca pude mergulhar (tum dum tsss) em interesses particulares específicos. Eu mantinha tudo sobre controle aqui na minha cabeça. Desejava me apaixonar por coisas do mundo, ao mesmo tempo que sabia que não poderia deixar sair de mim. Sou controladora e tenho meus motivos. Mas a um pouquinho mais de dois anos me deparei diante de duas situações que escapavam pelo vão dos meus dedos:

1 – a iminência da morte por uma doença provocada pelo ritmo de trabalho, de vida,do mundo, de mim.

2 – a sensação de que eu corri demais pelos sonhos e expectativas de outras pessoas, que as conquistas, experiências e vivências que eu (deveria?) ter ao longo da vida, já tinham acontecido, e por conta de uma falha no tempo, ainda existiam mais anos do que coisas para serem vividas.

Fato posto, eu escolhi experimentar tudo aquilo que não estava na lista das coisas que eu poderia ser ou fazer. Aquelas das expectativas alheias e que eu jamais parei pra pensar meu papel nisso. Eu estou experimentando coisas novas, sensações novas, uma liberdade nova.

Não se consegue resultados diferentes fazendo tudo da mesma forma.

Eu estou curiosa e estou deixando essa curiosidade me guiar, passando por cima da minha lógica. Se eu pudesse dar um conselho a qualquer pessoa hoje, eu diria “Mantenha sua curiosidade (e olhe pra você de maneira crítica) ”. O desconhecido do leito marinho parece abrigar segredos não só sobre a evolução da vida terrestre, mas também sobre os processos geológicos que moldaram nosso planeta. Estudos recentes apontam para a existência de ecossistemas únicos, como as comunidades que prosperam em torno de fontes hidrotermais, que desafiam nossa compreensão sobre os limites da vida.

Curiosamente, a analogia entre oceano e universo não é só poética, então assim como buscamos entender a matéria escura, invisível, que compõe a maior parte do universo, tentar desvendar os mistérios do oceano é encarar o invisível que molda a vida na Terra. A pressão esmagadora das profundezas e a escuridão absoluta servem de lembrete de que o ambiente mais próximo pode ser tão enigmático quanto as estrelas mais distantes. Baita metáfora daqui de onde eu vejo a vida passando.

Eu me apaixonei pelo oceano, mesmo não estando nada próxima dele. Cheguei a tentar ir estudar formalmente sobre oceanografia, mas a realidade da minha vida me puxou de volta. Meu destino por enquanto é o Noções de Oceanografia , disponível gratuitamente pelo Instituto de oceanografia da USP com suas quase 1000 páginas de maravilha.

Essa busca por conhecimento do oceano é, para mim, uma motivação que vai além do fascínio científico (e acaba fazendo com que eu me comporte e fale como o Chaves empolgado – e ZAZ!), acho que é uma espécie de convite para reavaliar minha (nossa) relação com o planeta. Se somos capazes de sonhar com viagens interplanetárias, deveríamos nos dedicar a compreender o que se esconde logo abaixo da superfície onde a gente já está. Afinal, o oceano não é uma extensão da Terra, o mar é aqui. O oceano regula o clima, armazena calor, produz mais de metade do oxigênio do planeta, abriga cadeias alimentares que sustentam bilhões de vidas. Debaixo de tudo isso existe um universo inteiro (talvez?). E como pode a gente um grãozinho em cima de uma bola de fogo não se dar conta da nossa insignificância pra grande parte das coisas?

O mar, assim como o universo (que já foi um hiperfoco), pode estar aí talvez pra ajudar a gente a lembrar o tempo todo que não sabemos tanto quanto imaginamos.

E talvez essa ignorância seja justamente o que me fascina. Não o saber pelo domínio, mas o saber pela escuta curiosa. Eu, assim como o fundo do mar, mereço e queria que soubessem sobre mim não pelo domínio mas pela escuta curiosa.

Nesse processo de olhar para o mar e olhar pra mim, me apaixonei pelas mulheres que desbravam os mares, ainda que não na sua profundidade. E por aquelas que se dedicam na preservação dos oceanos. Eu ainda não sei exatamente como engajar, mas achei uma paixão, um hobbie, e o princípio do que pode vir a ser “UM SONHO”, mas é papo pra outro post.

Claro que tem a possibilidade disso ser um hiperfoco, mas ao invés de patologizar vou só manter no meu coração como um interesse intenso pessoal e eu espero que dure porque eu tenho descoberto coisas, me maravilhado. Tenho vivido apaixonadamente curiosa e de coração aberto para outros mares.

* Este post faz parte do BEDA 2026 do Entreblogs

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4 Comentários

Taís

Que post mais lindo, sério! Esse com certeza é um dos melhores posts que já li recentemente. É lindo ler sobre essa sua paixão pelo oceano e a relação com seus mares pessoais. Eu super concordo que o oceano merece muito mais da atenção que recebe. Pra perservar, estudar, conhecer mais a fundo mesmooooo! <3 https://nyrtais.blogspot.com/

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M.

Tem sido uma experiencia nova me permitir trazer coisas tão pessoais pra espaço publico, mas eu fico feliz que você tenha lido e que tenha feito sentido.

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Lidiane Dutra

Que lindeza o seu texto! Sou professora e vivo numa cidade litorânea, e o senso comum é que todos conhecem o mar e frequentam a praia no verão. Mas acontece que muitas crianças nunca tiveram essa experiência, pelos mais variados motivos. Então, organizamos uma saída de campo até a praia, para conhecer o mar. Foi um momento mágico, a reação das crianças com as ondas recuando e avançando, todas catando conchas para levar para as famílias e amigos. Aquela imensidão toda e elas em silêncio, contemplando. O mar toca fundo no nosso ser, traz uma sensação de conexão inexplicável.

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Aline

Que texto bonito. Adoro suas metáforas e analogias. E amo ver pessoas estudando coisas por interesse pessoal, por curiosidade, pra sentir quentinho na alma. A gente colocou na cabeça que o estudo é só pra ganhar dinheiro e parou de se interessar pelo mundo fora do trabalho. Continue descobrindo, continue procurando aquilo que te desperta curiosidade :) Eu não sei nadar então até a superfície do oceano é cheia de mistérios pra mim. Adoro ler o que você escreve. Quero andar com você no recreio! Um abraço.

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