Todas as pessoas que já amei

Uma das minhas śeries preferidas da vida é Alta Fidelidade. Eu já havia lido o livro, visto o filme com o John Cusak, mas ai veio a série com a Zoë Kravitz e a versão de Rob. Esse é um personagem com o qual me identifico demais, na forma de amar e na forma de ser merdeiro – inclusive já fui atrás de todos os meus ex pedindo pra eles apontarem pontos fortes e pontos a melhorar na minha pessoa e não me envergonho disso apesar de nem todos me responderem – mas também na tal da “arte de criar playlists”.

Musica é uma parte muito importante na vida. Era importante e presente na minha casa na infância, seguiu sendo importante e marcante pela adolescência e vida adulta. recentemente refletindo sobre isso (e sentindo a absurda falta de D.) conclui que minha conexão afetiva com as pessoas dependem de 2 fatores principais. Eu poderia falar beleza e posicionamento politico, mas beleza não é meu requisito embora posicionamento politico seja indiscutivel, mas eu seria capaz de relevar com base nos fatores realmente importantes Humores que combinam e O GOSTO MUSICAL. EU negocio inegociáveis se o senso de humor da pessoa combinar com o meu e se essa pessoa ouvir musica boa, não necessariamente o mesmo que eu porque isso não teria a menor graça, mas se ela abre meu leque de possibilidades de sons.

Eu já falei em outro post que coleciono pedacinhos de musicas. Mas também coleciono pessoas, momentos, histórias configuradas em sons. Minha história com meu pai está em Ribbons in the Sky, meu filho está em You Be In My Heart (que só de escrever me dá vontade de chorar por ter muito significado pra relação que a gente tem um com o outro e como sempre foi só eu e ele no mundo – “o que nos conecta não pode ser quebrado”). Minha viagem para Berlin é Want To Want Me do Jason Derulo, minhas amigas do ensino médio e as aulas que matávamos pra ir pra biblioteca sempre sera Crazy do aerosmith.

Eu guardo tudo isso em caixinhas particulares de afeto, coisa minha, não sou muito boa em demonstrar esse afeto e acredito que essas pessoas dificilmente saibam o quanto elas significam pra mim. Eu crio playlists de aniversário e acho que são presentes incriveis e acho que na vida só esbarrei em 1 outra pessoa que tinha paciencia de parar e montar uma playlist com finalidade específica.

Eu gosto de saber sobre a relação das pessoas com a musica e gosto de guardar esse tipo de informação sobre elas comigo.

Entre as minhas playlists existe a “Todas as Pessoas que já amei 💖” e quem entrou pra essa lista realmente significou muito pra mim. Em 45 anos (quase 46) só 6 pessoas couberam nessa playlist. Talvez se essa playlist chegasse nelas elas pudessem se encontrar, mas eu duvido. D. não era esse tipo de amor, mas ele esta pra sempre em Slow Dancing in the burning room e é a unica pessoa pra quem eu tenho certeza que eu também tenho som e jamais saberei qual é.



Fazer uma playlist é uma arte delicada e pode ter o significado que a gente quiser que tenha.

Micarla do Doses de Mika a gosto, descobriu em 2022 a existência do calendário do advento e, consistente e crítica ao fato de ser algo mais mercadológico por causa de uma influencer de papelaria e bullet journal, gostou da ideia e fez uma playlist presente como calendario do advento para Ben do esKAYvendo que na época ainda estava no RJ, então todo dia ela salvava uma música na playlist pra ele. Nascia a Playlist do Advento – que particularmente acho que é algo que deveria virar um ritual pessoal mesmo com as pessoas estando próximas.

Eu não tenho um calendário do advento, mas tenho a Músicas que você me manda, onde reuni músicas que recebi de uma mesma pessoa, de tempos em tempos durante a pandemia pra deixar meu dia “melhor”. Eu vivi durante esse período 13 longos meses de uma depressão profunda em que eu virei meu maior inimigo e todos os dias era uma luta. Guardei as músicas de maneira aleatória, recolhendo mensagem por mensagem quando melhorei.

Tem quem guarde momentos com mais rigor do que eu. O Felipe do A Grande Onda tem seleções pessoais limitadas a no máximo 4 musicas por artista e uma ainda mais especifica com apenas 1 musica de cada artista. Eu nunca pensei sobre isso, mas muito provavelmente eu falharia nessas regras sendo completamente emocional e colocando um álbum quase inteiro numa playlist.

Porque as vezes a gente dá sorte ou no meu caso azar. Quando eu terminei com uma pessoa que eu amava loucamente Adele lançou 21. Terminei num dia e surgiu Someone Like You no dia seguinte, tocava na rua e eu sentia enjoos, e eu tinha dores físicas ouvindo essa música, dores que durariam 3 anos. Levou 3 anos pra eu conseguir ouvir essa música de novo.

As vezes é uma música , aquela musica especifica e eu entendo Nothing’s Gonna Hurt You Baby do Cigarettes After Sex lembrar Fredrik, que aparentemente foi um homem fazendo homice na vida da Taís do Nýr Dagur. “Gente que promete muito e entrega nada”. A pessoa de Someone Like You por quem eu sentia dores físicas prometeu muito e no final entregou praticamente outra família, estava namorando outra nos últimos 8 meses do nosso relacionamento (eu jamais desconfiei).



Para Bruna do meu Museu Particular, Ai que Saudade d’Ocê é a primeira música que vem na cabeça e é a lembrança de um relacionamento vivido a distância. Ouvir a música sabendo o contexto e o significado pra outra pessoa dá um outro tom pra coisa toda.

Conversei com o Duda do Didalog e ele me contou a relação dele com esse tipo de construção pessoal que é tão bom que quero manter a conversa na íntegra.

“Teve uma época da minha vida que minha principal forma de expressão artística era a criação de playlists. Tinham capa, propósito, porquê e nenhuma música era escolhida por acaso (wow! how pretentious). Apesar disso, são poucas as que realmente são dignas de nota. Eram playlists do tamanho de álbuns que “narravam” algum momento da minha vida, com músicas daquele momento e tudo mais.”

“Minha favorita talvez seja a Catch, de 2020, sobre o segundo semestre de 2019. Fiz ela depois de outra chamada “Reject” (em referência ao amigo Javascript). Foi o momento que eu estava atrás de um primeiro emprego na área, mas nisso tendo que superar os nãos e vendo o jovem promissor que eu era entrando em decadência. “

“Mas indo pro assunto do romance, inspirado aqui pela sua “todas as pessoas que já amei”, a última playlist que fiz nesse formato foi em 2022 e sobre o momento do término de um namoro, este que na época tinha sido o mais “uau” que tive até ali. O nome é o UNIX timestamp da mensagem que decretou o fim do relacionamento e a capa é uma foto da minha mão sem a aliança, que tirei logo após terminarmos via WhatsApp. Acho essa capa feia, diga-se de passagem kk. A primeira parte busca ambientar que há um relacionamento, então um estado de indiferença e de estagnação. Na segunda, é o pós término, sobretudo a época de dois meses que tentamos manter uma amizade, até o dia que concordamos em não nos ver mais, choramos – um fiasco num shopping center – e whatever. A última faixa é o pós-pós-término: alívio, superação e cada um com a sua própria vida. “

“Até pensei em voltar com o hábito, sobretudo por conta de dois relacionamentos em particular que tive desde então. O primeiro tá documentado numas trocentas playlists mais difusas, mas o segundo só no meu diário mesmo. Pra esse último, bem mais breve, – foi só uma situationship, mas que me marcou -, teve duas playlists que eu cheguei a fazer, apesar de nunca ter feito uma capa, tampouco publiquei. A última se chamava “and if you’re ever around” – em referência a eu me questionando se a pessoa ainda acessava o meu site – organizei meio que como um vinil (ambos os lados com a mesma duração quase) e seguia essa ordem, sendo a primeira parte menos linear: “

Lado A

  • The Velvet Underground – Sunday Morning
  • Slowdive – When The Sun Hits
  • Lorde – 400 Lux
  • The Killers – Shot At The Night
  • blink-182 – First Date
  • Selvagens À Procura de Lei – Enquanto Eu Passar Na Sua Rua
  • Karen Jonz – Coocooocrazy (ft. Lovefoxxx)

Lado B

  • Arctic Monkeys – Mad Sounds
  • Balu Brigada – So Cold
  • Chappell Roan – The Subway
  • Placebo – Pierrot The Clown
  • Lupe de Lupe – Gaúcha
  • Caroline Polachek – I Believe (Acoustic Version)

Isso senhoras e senhores, é ouro puro.

Jesus ( que é Liko) do Cosmoliko tem várias playlists desse tipo, momento/pessoas. Inclusive trocava fita cassete com a namoradinha na escola ,namoradinha com excelente gosto musical , com 10 anos já era roqueira e ouvia guns n roses , e ele colocava ela pra ouvir Catedral da Zélia Duncan 🙂

Ele fez esta playlist para uma amiga, e essa outra pra tentar convencer outra amiga a virar fã de beck. Curiosamente nunca fez playlist pra alguém que gostasse, eeu acho que faz sentido. Eu não faço playlists para pessoas que amei, elas só se tornam musica.

E falando em Guns and Roses, eu também fui a criança roqueira, tinha um poster enorme do Axl Rose no quarto e um dia uma amiga beijo o poster e deixou uma marca gordurosa de batom nele, e eu fiquei arrasada. Hoje virou piada. Eu ainda tenho contato com meus amigos de pré escola (que foi um período complicado pra mim) e recentemente resgatei T. um amigo muito querido, que ganhou de aniversário uma playlist com muito do que é a minha essência. Ele me disse que se sentiu ganhando um K7 personalizado com um papel de carta, mesmo que a gente esteja a 15 mil km de distância um do outro, eu acho que ele sentiu exatamente o que era pra sentir. Eu também me senti nervosamente entregando K7 com o Papel de carta. Ele é o tipo de gente que eu tenho medo que acabe na “Todas as pessoas que amei”, 15 mil Km e 42 anos são números demais, assustadores demais.


Eu cheguei no Entreblogs um pouquinho antes do Blog Every Day começar, e tive o privilégio de viver intensamente com um grupo de mais de 90 malucos 31 dias de escrita. Mergulhar nas suas histórias, conhecer suas famílias, bichinhos de estimação, jeito de amar, livros, filmes, comidas, coisas que odeiam, viagens, dias bons e ruins. Foi uma grande jornada. Mas além de ler tive o prazer de “conviver”, celebrar, dividir angustias, trocar código, falar de politica, me identificar entre neurodivergencias, rir, chorar, brigar contra vilões engolidores de blogs e saio desse BEDA com um carinho especial por essas pessoas. Algumas certamente vão virar música na minha história. Valeu Entreblogs por me desafiar, por devolver o prazer da escrita e me proporcionar pessoas e músicas novas. Fechar esse BEDA, no dia do Blog com um post colaborativo diz muito sobre minha esperança nessa internet extremamente viva.

O QUE DIZEMOS AO DEUS DA INTERNET MORTA?

HOJE NÃO! ⚔️

✴︎ Este post faz parte do BEDA 2026 do Entreblogs

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me deixa saber o que você pensa

2 Comentários

Adê

Aii que saudadeee! Eu escutava tanto "Extase" com meus pais, sempre ficava tocando em alguma viagem ou de fundo, em casa... Nunca tinha pensado em criar playlists assim...As que a gente tem montado em casa ou são infantis, ou são pra botar neném pra dormir hahahah <3 E o BEDA foi demaaais! Bjsss

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Nossa, me desbloqueou memórias aqui Nunca foi do meu hábito fazer playlists pra mim mesmo (nem ouvir, sou de álbuns), mas lembrei duma crush da faculdade que a gente fazia playlists um pro outro alternadamente em 2015 (foi só crush porque ela é lésbica, paciência). Lembrei também duma amiga virtual com quem eu tava fazendo uma playlist até o começo do ano, cada um indicando uma música pro outro por vez, mandei mensagem pra ela agora mesmo!

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