Continuum lésbico

Hoje é o Dia da Visibilidade Lésbica, então falarei sobre a relação de amor e ódio entre lésbicas, monossexuais e pessoas transgênero/não binárias a partir da minha vivência como uma pessoa que se identificou como lésbica aos 30 anos, e foi se entender bi/pansexual aos 35 e tem pensado essas relações nos últimos 16 anos, assistindo as coisas mudarem e nascerem mas em muitas vezes sumirem ou morrerem.

Cada vez mais pessoas têm refletido sobre o real significado dos rótulos e expressado o desejo de caminhar rumo à “desrotulagem”. Por outro lado, novos termos e identidades surgiram significativamente nos últimos anos, expandindo a sigla de LGBT para LGBTQIAPN+. Embora essas duas tendências pareçam opostas, acredito que apontam para o mesmo objetivo: novos rótulos são criados e os existentes têm suas definições ampliadas, migrando da padronização para a personalização — o que, na prática, gera um efeito de desrotulagem.

Assim como em nomes próprios: cada nome tem um significado fixo ou uma origem, mas cada pessoa dá a ele um sentido único. Cada “Josh” é um Josh único (como na famosa Josh Fight, que aconteceu há algum tempo, quando uma multidão de pessoas chamadas Josh se reuniu para duelar com macarrão de piscina).

Há quem questione: se a orientação sexual é fluida e o objetivo é combater o essencialismo, por que manter o rótulo da monossexualidade? Por que não abandonar tudo e unir todas as orientações sob o termo queer? Porque não sermos todas Sáficas? A não binariedade estaria excluída do escopo da monossexualidade?

Sem entrar na lacuna conceitual entre a militância local e o significado original do termo em inglês, vale lembrar que queer era originalmente uma palavra ofensiva, e nem todo mundo se sente confortável em ressignificar esse rótulo. Além disso, um termo muito amplo pode ocultar assimetrias de poder dentro do próprio movimento: quem está mais próximo da norma acaba sendo aceito mais facilmente e ganha mais visibilidade, enquanto grupos duplamente marginalizados perdem espaço e subjetividade (a exemplo do feminismo liberal, historicamente criticado por focar em mulheres brancas de classe média e ignorar as demandas de mulheres negras, periféricas e não heterossexuais). Como se constroem politicas publicas para aquilo que não tem nome ou especificidade para ser atendida?

Muitos rótulos de orientação sexual nasceram sob uma lógica binária de gênero, mas seus significados se transformam com o tempo. Hoje, existem lésbicas não binárias. Da mesma forma, embora a bissexualidade difera da pansexualidade na forma como percebe o gênero do outro, ela não exclui pessoas não binárias. Quando há exclusão, trata-se muito mais de um preconceito individual do que da limitação da orientação sexual em si.

Minha expectativa para o futuro é um mundo sem rótulos, mas usá-los hoje não é uma contradição. Enquanto a desigualdade existir, os rótulos são ferramentas necessárias para gerar visibilidade e articulação política.

“O pessoal é político”, e essas identidades são reafirmadas a cada vez que alguém se assume. O ato de sair do armário combate a ideia padrão de que “todo mundo é cisgênero e heterossexual até que diga o contrário”. Quando a sociedade permitir que todos vivam abertamente com suas identidades, esses rótulos perderão o peso que têm hoje — e é aí que o objetivo da desrotulagem será alcançado.

O maior ganho da desrotulagem é eliminar pressupostos: características biológicas não definem gênero, e gênero não determina aparência, expressão ou comportamento. Rótulos podem ser atalhos práticos para passar informações rápidas, mas ideias pré-concebidas nos privam da oportunidade de realmente conhecer alguém.

Por que a visibilidade lésbica é necessária? A identidade lésbica simboliza a intersecção entre ser mulher e ser não heterossexual. Essa vivência específica se perde quando é reduzida apenas a termos genéricos como “gay” ou “queer”. Muitas mulheres reivindicam o termo lésbica para afirmar sua autonomia e descrever sua realidade com precisão. Por outro lado, o estigma ainda associado à palavra faz com que algumas pessoas a evitem — o que também revela a importância do debate.

Por fim, vale destacar a dimensão política dessa identidade. O “continuum lésbico”, conceito proposto por feministas como Adrienne Rich, e que recentemente tive o prazer de ver se materializando em um novo conceito (que espero esteja em breve espalhado no mundo) cunhado por Mariana Lemos que enfatiza a conexão e solidariedade entre mulheres para além do desejo sexual, propondo uma aliança capaz de desestruturar a heterossexualidade compulsória.

Leituras adicionais recomendadas:

  • Chen, L. F. (2011). Queering Taiwan: In Search of National Others. Modern China.
  • Cohen, C. J. (1999). Punks, Bulldaggers, and Welfare Queens: The Radical Potential of Queer Politics? Social Text.
  • Rich, A. (1980). Heterossexualidade Compulsória e Existência Lésbica.

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