Noites de Tormenta
E mais uma vez to eu aqui escrevendo coisas porque não acho que a gente seja capaz de conversar sobre. Eu não sei se é um padrão de convivência ou se é só triste porque deveríamos fazer isso tomando um café.
Não sei se a gente vai ter a oportunidade de conversar de novo, mas acho que não consigo ficar falando de As e Bs e mandando meme sem resolver as coisas.
Acho que está claro o quanto a gente se incomodou com o que aconteceu em Inhotim. E eu estava super disposta a fazer o que a gente sempre faz: mudar de assunto, deixar as coisas passarem e fingir que nada aconteceu. Mas depois da terapia entendi que não dá pra mim. A psicóloga me disse que quem tem intimidade pra dizer que eu “estraguei o dia” da pessoa, tem intimidade pra uma conversa adulta e que eu deveria tentar e não desistir por acreditar que pessoas não mudam, então vamos lá.
Eu quero que saiba que eu entendi e entendo em que situação você estava no sábado. Entendia tanto que estive por perto na quinta e na sexta verdadeiramente preocupada com como você se sentiria em um ambiente que segundo você mesmo havia me dito, não sabia se seria ou não hostil ou estranho.
Mas sábado você atravessou uma linha de intimidade que de novo eu preciso te dizer que eu não te dei. Eu não sei porque você achou tranquilo expor que sabia dos combinados meus com o motorista que você indicou, e nem porque achou natural interferir em qualquer combinado já feito envolvendo minha família — mas também entendi que você não estava 100%. Pelo menos não aprecia estar. Me chateei bastante, porque achei que você estivesse me escutando quando eu falava sobre a complexidade da minha família, mas tentei relevar.
Mas acontece que no final da noite, tanto quando conversamos depois de eu ter ficado sozinha no rolê, quanto nas trocas de mensagens pelo WhatsApp, que você foi passivo-agressivo na intensão de não se responsabilizar por um mal estar e acho que não pensou muito no que disse e nem em como disse.
Não é porque chama passivo-agressivo, que isso não te torna um agressor. E foi isso que você fez no sábado. E tornou a fazer no domingo, dessa vez esbarrando nos sentimentos do meu filho, que estava ali pra “fotografar afetos” e você era um afeto dele. Sábado a noite te vi se debatendo para não ter culpa, que é um conceito cristão que eu não acredito e odeio(por isso não peço e não espero desculpas — eu não acredito nisso), e eu acredito que mais do que não ter culpa (que é algo inventado), a gente deveria ter responsabilidade, carinho e cuidado um pelo outro.

Eu fico repassando na minha cabeça ou que eu ouvi de você, e o que eu li de você, e revendo você agir como se estivesse correto no seu comportamento e fico arrasada porque acho que você realmente acredita que fez o melhor então tinha todo o direito de mostrar irritação e indiferença. Ou que esse seja o melhor que eu mereça. Eu amar você ou termos transado um dia e sermos íntimos, não autoriza você a me agredir (inclusive em publico). Eu fico bem chateada porque sei que você reproduz uma parada no automático, não acho que você teve a intensão de fazer isso, mas acredito que você já tenha vivido alguma coisa muito parecida com algum afeto e isso surja quase como um gatilho pra você, mas ainda assim eu não mereço. Me dizer “eu faço tudo, eu me esforço e tô sempre errado” é um dialogo que não cabe entre dois amigos, mesmo que a gente seja mais que amigos, eu não tenho expectativas que você faça coisas certas pra mim, mas queria que a gente pudesse sim olhar uma na cara do outro e falar “caralho parceira” e não repetir as situações.
Também não mereço ouvir que eu deveria correr atrás dos seus amigos brancos “porque este grupo é assim, se quiser acompanhe”. Não acho que na hora você tenha pensado no peso que isso teria/tem pra mim, e nem sei se você entende do peso dessa frase pra você também. Em espaços como o inhotim, você é mais que o meu amigo, você é minha comunidade e a gente deveria se apoiar. Entendo também que aquele seja seu espaço de conforto, são seus amigos, o festival que você criou, o seu emprego. Mas lidamos com os desconfortos das pessoas de maneira diferente, e não é porque você é querido e acolhido por um grupo de pessoas, que todo preto vá ser acolhido e tratado da mesma forma, e isso precisa estar na sua mente. E aqui por favor não entenda que eu estou chamando seus amigos de racistas, de forma alguma, todos foram muito gentis dentro do que eles conseguiram ser e não é porque tentaram que eu preciso aceitar isso como suficiente, você não deveria estar pedindo isso pra mim. E no mais, eles também se constrangem porque não existe um assunto entre nós, eu não sou parte desta bolha. Você pode sempre me deixar com a T. e o L., com o C., com a P., com o G., o C., a H., a E. e outras várias pessoas que você já me apresentou na vida — não é sobre quem são seus amigos, é mais sobre perfis que não funcionam juntos (e nem precisam funcionar). Sabe o que você me disse sobre as festas lá em casa, sobre como você se sentia? Mesmo com as pessoas sendo gentis com você, não era assim que você se sentia, você sentia que não era bem vindo, então é assim que eu me sinto com aquelas pessoas especificamente. E deveria estar tudo bem.
Eu realmente não sei o que faz a gente brigar dessa forma, você é a única pessoa com quem eu brigo desta forma, como se eu estivesse num relacionamento tentando me defender de quem deveria ser meu companheiro. Com toda tristeza do mundo, no sábado, eu me senti convivendo de novo com o André, que nunca gritava, mas me invalidava e me confundia com um baita gaslight. E eu acho que você deveria saber disso, porque entre a gente tem muita coisa não dita e elas precisam ser ditas (e nem sou eu chegando a essa conclusão).
Você é um grande engenheiro social, lida com uma puta pressão, tem outro tanto de coisa na sua mente pra curar, e também esta sujeito a coisas externas, eu entendo e tento ser empática porque eu te amo, te admiro e você é importante pra mim. Porém eu não quero mais que você me machuque desta forma, e nem ao Pedro, que é bastante apegado a você (você criou esse laço).
Eu espero realmente que a gente chegue num ponto em que consiga trocar ideia sem esse conceito de CULPA porque é adoecedor demais pra nós dois. E que aquilo que a gente fala de positivo um pro outro seja condizente com a forma como a gente age um com o outro.
Apesar de qualquer coisa eu te amo, e quero a gente saudável. Eu não traria você tatuado na minha pele se eu te achasse feito só de defeitos e erros comigo — e as únicas pessoas que eu carrego na pele são meu pai e meu filho. Nunca se esqueça disso.
Das coisas que escrevo em noites de tempestade para quem não mereceu meu afeto
* Este post faz parte do BEDA 2026 do Entreblogs.
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